quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Estado Nacional: Introdução - Tem alguma coisa errada.

Eu comecei a escrever este texto tem algumas semanas, e ainda estou ajustando ele, testando-o. O que me levou a escrevê-lo? A minha indignação com a ignorância política da maior parte dos brasileiros. Esta é uma tentativa muito superficial de abordar dezenas de milhares de assuntos de uma só vez, em um só texto. Faltam provavelmente muitas coisas, mas nós vamos nos virando com o que temos, correto? Essas coisas, imagino, virão com o feedback do texto, com algumas releituras e com mais reflexões adicionais. Como disse anteriormente nesta página, tenho imensurável apreço pela reflexão. Sei que ele poderá ser um texto chato, às vezes, e malescrito, na maior parte do tempo. Mas, garanto, ler esta introdução é muito mais chato. Então deem uma chance ao texto.



Grande estímulo a criação desse texto foi minha redescoberta da política, em duas formas. Não que eu houvesse deixado de me interresar por ela, mas nunca fui muito ativo, o que não me impedia de ter ideias políticas próprias, que hoje creio ultrapasadas. Meu processo de amadurecimento veio acompanhado de uma crescente descrença na utilidade de um Estado supercentralizado, como existem no Brasil e na França, e na prevalência dos interesses de cada indivíduo como motto para a prática de uma política que, antes de tudo, impeça que os direitos de todos os indivíduos sejam violados. Minha crença também num livre mercado, numa democracia mais regional, mais expressiva dos interesses de uma determinada localidade, região, inclusive no que concerne a um legislativo estadual mais independente que o nosso e até mesmo em um executivo amis independente dentro de um contexto regional me inclinaram para o Libertarianismo americano, que não tem nada a ver com sacanagem.



Também me aproximei de uma doutrina política chamada distributismo, que encontra expressão nos escritos de G. K. Chesterton e Hillaire Belloc, além de espelhar preceitos presentes nas encíclicas papais De Rerum Novarum e Quadragesimo Anno , e prega uma divisão mais justa dos meios de produção, sem, no entanto, abandonar o capitalismo e o modelo liberal. Me captou também um estudo mais aprofundado da União Democrática Nacional, partido político da nossa primeira era democrática (1946-1964) que, na figura do grande ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, pregava um Estado Democrático livre das amarras clientelistas que se impunham sobre o eleitor brasileiro até então, bem como a moralização da política, e encontrava em sua base de apoio a classe média liberal.



Menor, mas no entanto digna de citação, é a influência da carta recentemente publicada pelo ex-Presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, ao seu partido, o PSDB, buscando trazê-lo de volta aos princípios liberais que o fomentaram quando das origens da nossa Nova República. Esta carta prova que ainda existem políticos com interesses nos problemas públicos, com ideologia, que é fundamental na política, praticidade e uma consciência ímpar da realidade brasileira. Ainda que o texto tenha começado a ser escrito antes da publicação desta, ela foi sem dúvida inspiradora. Creio que esta exposição seja suficiente para vocês entenderem o que vem pela frente. Extremistas de quaisquer lados, saiam da sala. haha








O Estado Nacional






Introdução:






Tem Alguma coisa errada.












O Estado Nacional, nascido numa concepção moderna no século XVII, passa hoje por um problema sério, quando questionado acerca de sua função. Hesita de responder porque não tem resposta, se perdeu em meio aos desvarios socialistas que afligiram o século XX. Vive hoje uma crise de identidade.



Seria estúpido crer que o Estado sirva a vontade geral. Nunca foi assim. Praticamente seria impossível crer nisto, visto que estamos acostumados com a utilização da máquina estatal por aquelas classes mais favorecidas economicamente. Ideologicamente, estúpido, pois o que é o Estado em si mesmo?



O Estado é ente artificial destinado a mediar político-juridicamente as relações entre os indivíduos que o compõem. Ele não é a nação pela qual você vai morrer, nem a razão de você ser como você é. Sua propriedade é a única justificativa para sua morte em caso de guerra, e por propriedade entenda-se as pessoas que vivem nela inclusas, mesmo a sua sogra, se esse for o caso. A razão de você ser assim são seus pais, seus genes e as pessoas com quem você conviveu durante sua vida.



Exemplificando. Você é um aristocrata na França do século XVIII. A única coisa que você compartilha com um plebeu, ou mesmo um burguês, é a língua francesa, e nem tanto assim. As formas de comunicação, verbal e escrita, mesmo na França, onde o processo de unificação e consolidação lingüística foi muito mais forte do que na Alemanha, por exemplo, eram atinentes as classes sociais. Você luta, não pela França, ou por qualquer sentimento patriótico (afinal ainda não chegamos no século XIX), mas pelos seus privilégios. Isso se você luta. Às vezes é muito melhor pedir refúgio na Inglaterra, como você fará, se puder, no fim deste século.



E se não puder você provavelmente vai ser perseguido pelos seus compatriotas, não porque eles acham que o sistema é ideologicamente injusto, não, mas porque eles vão ver na Revolução uma forma de se vingar dos séculos nos quais sua família os empregou de forma abusiva, aproveitando de direitos nupciais e tudo mais. E também uma forma de expressar a inveja dele em relação a sua posição social. Sim, a vida não é tão fácil, nem para você.



Mas por que de repente tudo ficou assim? Porque no século XIX as pessoas eram inocentes. Depois do surto romântico que ocorreu no princípio do século XIX com a dobradinha Napoleão-Goethe e os derivados desta, todo mundo achou que existiam motivos melhores para se viver. Que se podia usar a política para fazer o bem, ou qualquer estupidez do tipo. Introduziram também um método altamente sanguinolento de se fazer política:






A Revolução






Entenda, a Revolução Francesa foi uma TREMENDA estupidez. Você tinha uma sociedade que estava vibrando pela democratização. Digo, você nem precisa questionar a vontade social para saber isso. Você tinha nobres, como Mirabeau, o Duque d’Orléans e alguns mais, que estavam ansiosos por democratizar a França. Se eles, que antes usavam e abusavam dos privilégios queriam democratizar o país, imagina o resto da população.



E você tinha os extremistas... Robespierre, Danton, essa corja, Eles eram MUITO piores que qualquer extremista muçulmano de hoje. Claro que haviam semelhanças, ambos os grupos de assassinos colhiam suas vítimas principalmente entre seus próprios correligionários - vide a execução do próprio Robespierre no final do Diretório. Mas a forma que os jacobinos arranjaram para chegar o poder e instalar um governo literalmente “terrorista” foi ímpar. Transformaram o Estado Francês, que fora durante séculos o símbolo máximo das virtudes apolíneas européias numa grande guilhotina que se embebedava do sangue de seus filhos, como um Cronos ensandecido.



Mas como Cronos teve seu ventre rasgado por sua cria mais arrogante, também foi esse o destino do Diretório. Com a morte do próprio Robespierre e a crescente militarização, não era difícil imaginar que em breve surgisse um ditador, no sentido romano do termo, um líder militar que conduzisse o recém instalado Consulado a vitória sobre seus inimigos. Napoleão.



Mas enfim, o texto não é sobre a Revolução na França. Talvez meu querido Tocqueville ficasse feliz caso eu desse nova lufada de ar as suas palavras que, graças ao pestilento esquerdismo que contamina o ensino da história de hoje, são tratadas como aquelas de um traidor.



Vale voltar um pouco para fazer uma crítica ao raciocínio comum daqueles historiadores que dedicam suas vidas a pesquisar a história que não aconteceu. SE não tivesse havido Revolução na França, ela NÃO seria igual à Inglaterra. Quando comecei a escrever este texto, pensei em começá-lo com uma leve crítica a noção de habitus, a segunda natureza de um povo, segundo o estudioso alemão Norbert Elias. Mas, no meu rascunho de texto, já pensava em desbaratar os historiadores que acreditam nesta idiotice, e para isso teria que apelar ao tão famigerado habitus.


Diz o estudioso que cada povo tem uma forma específica de se comportar, um caráter nacional, uma segunda natureza. Quem voltar acima verá que eu contesto isso logo ali, mas, admito, existem exceções. Afinal a história não é matemática, no qual todos os resultados são previsíveis. De fato, SE a Revolução não tivesse ocorrido na França, dificilmente esta se tornaria uma Inglaterra. Por que?



Simples: Modelos econômicos diferentes e estrutura que comandava a reforma (que no caso da França virou Revolução – me recuso a chamar a papagaiada de Guilherme de Orange de Revolução de fato) diferente. Na Inglaterra já havia uma inclinação a um capitalismo primitivo, com Leis dos Cercamentos engatinhando, supremacia naval já consolidada, modelos de colonização indireta, entre outros indicativos. A França não. A França tinha um modelo de colonização extremamente intervencionista, um capitalismo que (só poderia) se baseava na propriedade da terra, excluindo grande parte da noção de indústria bruta, ressalvas feitas aqui ao Colbertismo e o fabrico de produtos de alto luxo, além de se envolver constantemente em guerras européias que não poderiam trazer nenhum lucro ao país, coisa que a Inglaterra não fazia. A Inglaterra sempre teve essa vocação capitalista que faltava a França...



- Isso é só um esboço, não me canso de afirmar -

2 comentários:

Symphony of Iluvatar disse...

É cara, essas conjecturações contrafactuais, isto é "se não isto porém aquilo" são sempre envenenadoras da informação.

Em história não existe experimentação, nem nunca vai existir a não ser que façam uma máquina do tempo ou algo do gênero. Algumas pessoas fazem esse tipo de Spin de propósito para envenenar a capacidade de abstração das pessoas com pistas falsas ou maquear consistência a teorias inúteis porém muito convenientes a alguns.

A história deveria ser usada para nos fazer entender o presente e construir um melhor futuro, mas é como já dizia FHC quando do plano real: "Não fazê-lo (o plano) ou é incapacidade ou, o que é pior, imoralidade pela conivência com a exploração do povo e a injustiça social" - no caso, exploração das mentes.

Don Juan aux Enfers disse...

FHC sempre brilhante nas suas colocações. Ele aparece mais pra frente no texto! HAHA