quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Projeto Jenova

Sob edição constante.

É uma idéia que eu tenho há mais de 3 anos e não é simples. Ela parte de alguns pressupostos sobre a realidade brasileira. Mas hoje eu descobri que ela é Mais do que isso. É um ensaio para um sistema digital de democracia direta com perspectivas de evolução e um propósito holístico de certo modo - mas sem aquela coisa das ideologias radicais de viver de futuro e esquecer o presente.

Antes de chegar a tal, vamos à idéia.

Premissas

  1. A política brasileira está está completamente deteriorada, corrupta e humanamente irremediável. É necessária uma saída que não envolva pessoas para remediar o sistema, ou pelo menos o mínimo de pessoas possível.
  2. A máquina estatal brasileira, provavelmente por causa disto acima, é muito pouco eficiente, pouco produtiva, pesada e consome muitos recursos. 
  3. Dos 24% do PIB que o governo arrecada em impostos, menos de 1% é destinado à educação - cerca de 4,5% é destinado à educação pública total, e quando se trata de ensino superior, obviamente, menos ainda. Não temos, para piorar, uma educação formada por educadores e não só professores. Não temos compromisso com a formação de uma elite intelectual disseminadora de idéias. Conhecimento não é sabedoria. 
  4. O povo é mais frágil sem educação, assim como a economia, pois faltam pessoas dispostas (não sabem que há) ou capazes (não sabem como) de empreender idéias e gerar, assim, riqueza. Ou, pior ainda, pessoas capazes de criar essas idéias.
  5. Um governo mau-gastador, além de não proporcionar devido apoio às necessidades da economia e da população em si, gera inflação de demanda e não distribui renda tal como poderia se gastasse melhor

Esta é uma idéia grande demais para um só, precisariam de várias mentes trabalhando nela. Regime colaborativo em termos de idéias.
  1. Cada domicílio possuiria um Tablet através do qual pode se comunicar diretamente com o Governo, e vice-versa. Seção de sugestões e reclamações, criação de oportunidades e denúncias de qualquer tipo de problema. (Isso não substitui o uso de assembléias, apenas tornaria mais acessível, sendo possível uma moderação mais sintética)
    • Aceleração da resolução dos problemas.
  2. Formação de corpo sólido de estratégias e dicas técnicas que evitem problemas recorrentes em inúmeros setores. Compra, pelo governo, de tecnologias estrangeiras. Venda de pacotes informacionais por preços baixos, e fornecimento gratuito de versões básicas. Evolução constante na sintetização dos pacotes informacionais e atualização junto aos clientes.
    •  Aceleração da evolução da produção. Tentativa de aproximar o país da fronteira tecnológica.
  3.  Sistema capaz de interligar todos os sistemas governamentais numa espécie de banco de dados único e inteligente. Fazer transparecer dados que encurtariam barreiras. Orientar o povo e o governo de modo mútuo e inteligentemente direcionado.
    • Comunicação facilitada entre o povo e o governo.
  4. Interligar os serviços de governo e encurtar a distância entre o cidadão e o governo, de modo que, cada um com seu tablet poderia se comunicar diretamente com um órgão integrado preparado para reencaminhar questões de qualquer tipo para órgãos competentes a respondê-las.
    • Tornar a máquina estatal mais barata, porém mais eficiente e útil. Encurtar barreiras informacionais e aumentar sensivelmente a transparência com que são tomadas as decisões do governo. Aumento de produtividade e de participação da opinião popular.
  5. Automatização de funções, reduzindo corrupção. Substituir as pessoas (corruptíveis ou corruptas) que compõem o sistema por máquinas. Esquemas inteligentes de gestão de pessoas, especialmente no tocante à vigilância do sistema.
    • Aumento da eficiência, tanto pela redução de corrupção quanto pela velocidade.
  6. Integração dos sistemas, uma vez com a base de dados toda interligada em sistemas já automatizados, é possível reduzir em muito as barreiras entre o cidadão e a informação, especialmente na forma com que o governo executa seu serviço. Sistema colaborativo: o exercício da cidadania ficaria muito mais simples, prático e fácil se tivesse um tablet dentro de casa através do qual pudesse diretamente se comunicar com o governo de alguma forma, seja reportando quaisquer coisas que ele encontrasse de errado ou proativamente dando sugestões para melhorar coisas que já são boas. (Aquele clássico problema de marx)
    • Governo eficiente, transparente, barato, e muito melhor armado de dados sobre suas metas a resolver.
  7. Os parlamentares teriam seu salário baixado sensivelmente, e seus gabinetes sensivelmente reduzidos tanto em termos de pessoal quanto em salário destas pessoas. Pedidos de aumento serão julgados única e exclusivamente pelo povo. Pedidos de ampliação de gabinete de menos de 20% terão análise minunciosa do resto do governo, e de mais de 20% também vão à opinião pública. Redução grosseira de impostos.
  8. Os servidores públicos que seriam substituídos pelos sistemas automatizados de atendimento teriam dois destinos possíveis: 
    1. Encaminhadas à iniciativa privada através de acordos do governo com as empresas do país, em troca de incentivos. Encaminhadas às empresas estatais a partir de concurso interno, sob condição de retreinamento uma vez aprovadas. A esta alternativa tem prioridade os servidores mais velhos.
    2. Tomariam curso para tornar-se professores. Seriam feitos acordos com diversas universidades estrangeiras no intuito de conseguir bolsas para este fim.
  9. De outro lado, seriam fornecidas bolsas aos x melhores colocados no ENEM no país ou algo assim, para estudarem lá fora.
  10. Reformulação completa do sistema educativo brasileiro até o ensino médio - modelo definido por assembléia nacional dos professores, colocação de matérias essenciais e optativas (faz a aula quem quer, quem gosta). Obrigatoriedade de aparelhagem técnica nas escolas (para oferecer disciplinas de nível técnico), planos de oferecimento de estrutura pelo governo.

  • Informações que seriam úteis sobre mercado e economia, tudo com o devido sigilo. Em que setores de produção a economia está carente, e precisa de empreendimentos? Oferecer neles pacotes de Informação tecnológica e científica de níveis variados, todos extremamente práticos, como forma de tentar puxar a tecnologia para mais perto da fronteira.
  • Treinamentos (podendo ser sugeridos conforme os pacotes comprados pelos empresários), serviços de informações empresariais atualizado rigorosamente, estímulo à concorrência empresarial e a disputa pelo mercado (principalmente o interno). 
  • Alguns pacotes com nº limitado de compradores para distribuir melhor o crescimento equipes de acessoramento? Estudos de Tendências financiados pelo governo democrático-tecnocratizado. Melhor equilíbrio na razão Empregador/Empregados, e aumento da produção de ciência com a contratação de pesquisadores.
  • Modelos de cálculo para prioridades de pesquisa e concedimento de recursos, estímulo forte a tecnologias aplicadas (conforme as prioridades que os cálculos junto à base de dados fornecerem) que matem custos de manutenção, como por exemplo revestimento de estradas.
  • Estratégia de marketing precisa ser muito bem estudada, pois é uma idéia que não seria difícil de deturpar, desvirtuar ou fazer parecer menor na mídia.

  •  

    3,14

    Este é o manifesto do Partido Infolibertário. É uma propaganda, mas no caso só tem o script aqui.

    Início
    * Aparece uma tela preta com letras verde-acinzentadas. Um programa em modo texto começa a calcular pi até 10 milhões de casas. Aparecem as 2 primeiras mais devagar para a pessoa perceber do que se trata.

    - $ /usr/bin/sephiroth: Data calculation reached recommended level. 
    Start pattern recognition? (Y/N) y

    * Um programa matricial começa a tentar achar padrões na sequência de pi.

    - $ /usr/bin/sephiroth: CRITICAL ERROR 72: ¬£¢¬ ccccD&CF
    - 3425166348776551683628196817465134327136579476878496728193425617638567473245612323456133456473645636485466342561332671566784756678813352607345261335567465678156675801566578405668704865876088650676840566870486560746805607856780468000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
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    - 01001101 01100001 01101100 01101011 01110101 01110100 01101000 01011001 01100101 01110011 01101111 01100100 01001000 01101111 01100100 01001110 01100101 01110100 01111010 01100001 01100011 01101000 01010100 01101001 01100110 01100101 01110010 01100101 01110100 01000111 01100101 01110110 01110101 01110010 01100001 01101000 01000011 01101000 01100101 01110011 01100101 01100100 01000010 01101001 01101110 01100001 01101000 01000011 01101000 01101111 01101011 01101000 01101101 01100001 01101000 01001011 01100101 01110100 01100101 01110010

    * O sistema desperta (toma consciência de si) mas rapidamente crasha. O computador desliga e a cena muda para o quarto cinzento, e o cara de terno na janela fumando rapidamente olha para a tela, dá mais um trago e volta a olhar para a janela. Chove bastante lá fora.

    - A vida me fez acreditar em nada. Acreditar que... acreditar não é necessário. Tem um problema nisso: você pode perder a esperança. Ou de que você pode mudar, ou de que o mundo pode mudar. Eu tentei inclusive... eu Tento, me matar. (dá a última tragada e joga o cigarro fora).

    - Eu fui criado por pessoas que nunca tiveram fé na política Por causa dos políticos. No mundo das idéias, talvez isso pudesse ser uma falácia ad hominem, mas na prática... é bem fácil. Esse país é impedido de andar por uma mochila pesada demais.

    * Começam a passar rapidamente imagens translúcidas (como memórias) de casos conhecidos de corrupção, desinformação, crimes bizarros jogados na gaveta, e o tamanho do orçamento a pagar por tudo (inclusive isso) no final.

    - Vocês, eu não sei se sabem o tamanho disso tudo, mas eu sei que alguns de vocês sabem de algumas coisas. E sei que estão muito, muito putos com isso tudo. Pois eu mesmo também estou. Eu nunca quis ser político, e não tenho a menor vontade de ser. Esse título me dá nojo. Eu não sou ladrão, eu não sou criminoso. Por favor, me chamem de bacharel, ou pelo meu nome mesmo.

    - (aponta com cara de blé para o terno) Eu não me visto assim para parecer sério. Eu me visto assim por que estamos indo num funeral. A honra morreu a séculos, e aliás, a dignidade vai pelo mesmo caminho também, dentro do nosso governo. Eu estou aqui esperando para ir no enterro junto com vocês. (fecha o terno e vai andando)

    - Engraçado é que, honra, esperança, dignidade não são entidades que podem ser destruídas. Elas permanecerão mortas no governo e na parte controladora da sociedade enquanto não nascerem nestes de novo, livres.

    - Estou indo no funeral, no fim das contas, zelar para que suas crianças não sejam corrompidas também. (fecha o elevador)

    * Fim do comercial, e aparece o símbolo Pi.

    terça-feira, 6 de setembro de 2011

    Contra o Aborto

    Resolvi postar um texto apologético contra o aborto. O que me deu vontade de postar este texto foi o comum erro das pessoas ao argumentar que a proibição do aborto na verdade é uma defesa da liberdade da mãe. Fico escandalizado quando vejo as pessoas simplesmente ignorando o fato mais óbvio de todos: e a liberdade do feto? Vejo todo mundo dizendo que o aborto é livre exercício da vontade da mãe, mas este argumento é totalmente estúpido num Estado de Direito, ainda mais em um Estado que respeita as liberdades individuais.
    Vamos fazer um curto raciocínio, proposto por um cara que eu não curto porque, à parte desse raciocínio, a teoria dele descambou pr'um Estado do Bem Estar Social que se provou incapaz de cumprir suas premissas. John Rawls, o dito cujo, dizia que, quando os legisladores, mas especificamente os constituintes, fossem escrever os projetos de Lei, eles deveriam jogar sobre si um véu de ignorância. Mas que porra é essa? O véu de ignorância nada mais é do que um bloqueio imaginário que te impeça de saber sua condição, sua natureza. Como assim? Ora, as Leis são feitas para todos, e nós não conseguimos prever as condições de todos. Então, deveríamos, segundo ele, fingir não conhecer nossa condição porque, fazendo isso, poderíamos estar na condição de qualquer um. E isso seria o véu da ignorância, voltar ao estado original onde não temos consciência do que somos, consciência esta, se me permitem, só adquirida quando do convívio com outros seres. Se nos colocássemos nesta condição, protegeríamos a todos com as Leis, evitando de fazer mal a qualquer indivíduo, mesmo porque poderíamos estar fazendo mal a nós mesmos.
    Vamos exemplificar: Você é o Sarney. Você vai fazer uma Lei, sobre... Eutanásia de pacientes em Coma. Ora, vejam só, temos um exemplo onde os indivíduos para os quais a Lei se destina não podem expressar sua vontade. Daí você entrega a um bando de pessoas que, teoricamente, e sem nenhuma ironia neste teoricamente, desejam o bem do sujeito o direito de decidir sobre sua vida e sua morte. Qualquer um pode argumentar o que quiser, mas é muito claro o desrespeito a liberdade individual. Eu sou a favor da eutanásia, acho que o Estado não tem como regular essas coisas. Se o cara quer se matar, vai fundo. Acho que nem deveriam ser aplicadas medidas de cunho disciplinador, tipo internação obrigatória e essas coisas, em suicidas. Mas isso é muito diferente. O cara em coma não tá ali pra dizer se quer ou não morrer. Vinte anos se passaram e ele não saiu do coma? Como você, pai, irmão, esposo, filho, mulher, filha, mãe, pode dizer que o cara não tem uma mega vontade de viver e, mesmo sob aquelas condições, não gostaria de continuar vivendo, independente do quanto você o conheça? Ele pode ter um motivo desconhecido pra querer continuar vivendo. "Ah, eu senti que ele não queria mais viver". Sentiu? Você vai matar uma pessoa por causa de um sentimento? E o Sarney? Como ELE, que não conhece o cara nem de vista, pode falar isso?
    O Sarney, ao invés de fazer uma Lei estúpida como essas, por exemplo, deveria colocar-se sob o véu da ignorância e pensar que, na posição de um paciente em coma, ele talvez pudesse optar por continuar vivendo. Não são todas as pessoas em coma que querem morrer, e não é porque a pessoa tá em coma que os seus direitos personalíssimos passam para a tutela de outra pessoa ou do Estado. Quem acha isso possível, alguém dispor de seus direitos personalíssimos, mesmo através de documento oficial registrado, também pode muito bem aceitar que a tutela da vida de todos os judeus do Terceiro Reich tenha passado pro Estado Nazista e ele tenha optado por matar todo mundo. Claro que não estou dizendo que aceitar uma é aceitar a outra, mas aceitar uma e não aceitar a outra é fugir da lógica. Afinal, se a pessoa considera um paciente em coma tão não humano para dispor da sua vida a seu bel prazer, os nazistas também consideravam os judeus assim. Aceitar logicamente um é não refutar vigorosamente o outro, o que, no caso do nazismo, é a mesma coisa que apoiar um sistema que matou uma caralhada de gente.
    Agora vamos entrar na questão do feto, propriamente dito. A tinha evitado porque tem gente que usa o argumento escroto de que feto não é gente. Não tem cérebro, ou qualquer merda do tipo. Isso simplesmente não importa. Basta que partamos do pressuposto de que todo feto nascido de um humano vai se tornar um humano biologicamente normal para desbaratarmos esse argumento. Se coloca na posição. Você é um feto e sua mãe quer te abortar. Você gostaria de ser abortado? Ainda que existam algumas pessoas em condições miseráveis que aceitariam a oferta, a grande maioria NÃO a aceitaria. O ser humano, em geral, não disporia da sua vida por nada. A vida é o bem maior pro ser humano.
    Algumas pessoas falam de mães que não tem como sustentar seus filhos, ou qualquer coisa do tipo. Porra, a gente tá no século XIX? Se for assim, melhor é matar todos os pobres logo. A escolha que os defensores desse argumento fazem é a mesma que os caras que proibiram o tráfico negreiro fizeram, só que internamente. "Olha, já tem pobre o suficiente, facilita aí pros pobres matarem os filhos, pra não saturar o Estado". Porra. Os fetos são os únicos que tem o direito de dispor de suas próprias vidas. A vida do feto é um expectativa de Direito, ou seja, se tudo der certo, aquele direito vai existir. Primeiro que você não pode dispor de uma coisa que ainda não existe, mas deve esperar até ela se concretizar. Só que sendo um direito personalíssimo, individual, intransferível, NINGUÉM, a não ser o próprio indivíduo, pode dispor dele. Imagina se dispusessem da sua vida por você?
    O feto não é da mãe, não tem nada a ver com a mãe, a mãe serve unicamente pra sustentá-lo até ele poder fazê-lo sozinho. Isso se ela não o quiser, é claro. Se não fosse assim, o Estado também poderia dispor da vida de todos que dependem dele, ou seja, todo mundo que recebe Bolsa-Família, por exemplo. Sei que a exemplificação é tosca, mas espero que me entendam. O que eu quero dizer é que, independente de QUALQUER COISA, cada indivíduo é único, independente de seu estado e só ele pode dispor de sua vida. Por isso que a liberdade de expressão deve ser tão defendida, pois só ela nos faz indivíduos (tá, isso é papo pra outro texto). Se vocês acham que um dos motivos pro Estado estar saturado é a proibição ao aborto, o problema não é o feto, é o Estado. O Estado que não tem que oferecer saúde pública como o faz hoje em dia e, consequentemente, não cobrar tanto imposto, não o bebê que ainda não nasceu ser morto. O indivíduo NUNCA deve se sacrificar pela sociedade. Isso é utilitarismo. Isso é nazismo.

    segunda-feira, 5 de setembro de 2011

    A quinta dimensão (ou sexta)

    O entendimento desse texto requer a leitura prévia de Teoria do Desequilíbrio.

    Me disseram uma vez que existem seres cuja existência compreende mais dimensões do que nós. É um tanto complicado pensar, no entanto, como seria o fato de Ser em mais de uma dimensão temporal, poder trabalhar em mais de uma linha temporal ao mesmo tempo.

    Perceba que o fato de ser é decorrente do criar, isto é, a constante reflexão entre criatura e criador, e em cada um, do cruzamento entre estado de criatura e estado de criador. A equação do Ser envolve as próprias derivadas deste em sua fórmula.

    E nisso o sonho não-lúcido tem um lugar de destaque: é a igreja através da qual a criatura do homem, isto é, a idéia, comunica-se por vontade própria e soberana com seu criador.

    Suponha que fôssemos capazes de sonhar mais de um sonho ao mesmo tempo. E temos de considerar então que isto seria emular duas realidades totalmente diferentes, com percepções vívidas diferentes.

    Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e que tão vívido tinha sido o sonho que não sabia, ao acordar, se era Chuang Tzu acordado ou a borboleta sonhando ser Chuang Tzu. A pergunta colocada em Teoria do Desequilíbrio é: se dentre os inúmeros leitores do provérbio de Chuang Tzu, algum tenha por acaso sonhado que sonhava ser uma borboleta e depois acordava e era Chuang Tzu, exatamente igual à experiência subjetiva do mesmo, uma vez postulada essa igualdade, os momentos não seriam o mesmo?

    Seja então este sujeito capaz de ter dois sonhos ao mesmo tempo.
    Em um sonho, ele é A sonhando ser B que sonha que é C.
    Ao mesmo tempo, tem outro sonho em que é A sonhando ser B que sonha que é C, porém desta vez, o sonho de B sendo C é levemente diferente do outro.
    Nos dois sonhos, os protagonistas acordam e, tão vívida a experiência de sonhar ser C, surge a mesma dúvida se são B acordados ou C sonhando serem B.
    Como os sonhos tiveram diferenças muito leves, suponha que agora os sonhos são de A são exatamente iguais, inclusive as sensações nubladas de memória do sonho de ser C, a dúvida se é B acordado ou C sonhando (dentro do sonho).
    Quando A acorda, em ambos os sonhos, não sabe se é A que acabou de sonhar ser B, ou B que agora sonha ser A, logo após ter sonhado ser C. E em ambos os sonhos, estes momentos agora são iguais.

    Porém o mesmo momento saiu de duas diferentes sequências de eventos. Duas linhas de tempo paralelas se encontraram num ponto e seguiram a partir dali coincidentes.

    Engraçado seria se um homem dissesse que sonhou ser Deus, e tão vívida foi a experiência que agora não sabia se era Deus sonhando ser homem ou homem acordado do sonho de ser Deus.

    O que fará Deus ao acordar de seu sonho de ser todos nós?

    Não me diga que ele ficaria em dúvida se na verdade é ele acordado ou é todos nós sonhando sê-lo.

    quinta-feira, 1 de setembro de 2011

    Escritos Preliminares sobre a Teoria da Comunicação como Instrumento Máximo de Poder

    Você existe apenas naquilo que faz.

    Frederico Fellini

    Hoje, quando eu tava começando meu dia de trabalho, fui fazer uma pesquisa e dei de cara com essa frase em um site que eu estava usando como fonte. Esse site tem mania de colocar essas frases maneiras, mas essa parece que foi especialmente colocada lá. Já tem algum tempo que eu preciso escrever esse texto.

    Quando eu esbocei ele na minha mente, eu pensei em falar só sobre trabalho, aquilo que a gente faz. Mas não é isso que eu faço, ao menos não é só isso que eu faço. Pelo contrário, refletindo, descobri que o trabalho atrapalha aquilo que eu faço bem de verdade, e que todo mundo faz, ou deveria fazer, de verdade, que é refletir, pensar.

    Ontem, eu resolvi começar a colocar essa relação no papel, esboçando esse texto, que também era pra ter sido escrito ontem. Ontem eu desmaiei de cansaço.

    O que é trabalhar? A única coisa clara desse conceito, do que é trabalhar, é que ele é demasiado complexo. A gente tem que pegar o produto do trabalho pra descobrir o que é trabalhar. Trabalhar nasce de uma necessidade, necessidade essa que são duas na verdade, produzir bens de consumo para trocá-los ou consumi-los, um viés material, e produzir para alimentar seu próprio ego, ou para se sentir útil, ou qualquer justificativa que sua mente te dê para que você se sinta impelido a produzir, que poderíamos chamar de viés abstrato do que é trabalhar.

    Trabalhar então é, descartado todas as análises jurídicas ou econômicas, uma parte do conceito de produzir, que é uma parte do conceito de criar. Por que a gradação se dá assim? Porque todo trabalho envolve criação até um certo grau, que nada mais é do que tirar algo do nada. Nem que esse algo se limite a raciocinar um mecanismo de funcionamento, o raciocínio sempre surge do nada, ainda que inspirado por outra coisa, como o próprio mecanismo. A idéia surge na sua cabeça, ela não é produzida. A produção, o produzir, por sua vez, envolve a necessidade de uma matéria prima. Todo trabalho envolve produzir em um certo grau, sempre maior do que o grau de criar, pois todo trabalho envolve a necessidade de matéria prima.

    A gradação, se você pensar cabalisticamente, é mais ou menos como a das Sephirot. Do mais abstrato para o mais material, do mais espontâneo para o menos, do mais Divino para o mais humano. Trabalhar é uma atividade exclusivamente humana. Deus nunca trabalhou, Deus criava. Essa busca pelo material típica do capitalismo gerou uma sociedade onde todo mundo trabalha, mas ninguém cria. Vamos por partes.

    Não existe trabalho que seja somente criação. Alguém poderia dizer que “ah, o filósofo cria!”. Os filósofos de hoje, o que, numa sociedade altamente especializada, pouco dinâmica e capitalista como a nossa é um cara que fez faculdade de filosofia, não criam enquanto trabalham. O trabalho dele é dar aulas sobre o que outras pessoas criaram. Quando ele próprio cria, não está trabalhando. Trabalhar é um ato vinculado ao material, criar, ao abstrato. Não existe uma essência do trabalho. O trabalho carrega um pouco da essência do que é criar, mas somente isso, sendo infinitamente menor do que ela é. Diferente das essências dos homens, que no vazar pelas Sephirot, mantiveram-se substancialmente, as essências das coisas, ainda me escapa o mecanismo lógico para entender o “porquê” disso, se separaram em diversas ações no mundo. Por exemplo, o verde. O Verde existe essencialmente, mas não no nosso mundo, onde o verde se divide entre plantas, cores de lápis, objetos e até mesmo verbos, como “colorir de Verde”.

    Parágrafo explicativo:

    O Verde age no mundo em todas essas coisas, por isso que disse que a essência se separa em diversas “ações”. No mundo, não existe nada que seja estanque, tudo é dinâmico, apesar da vontade essencial da civilização ocidental era transformar tudo no que “é”, enquanto nada “é” em nosso mundo, tudo “deve ser; será; devir”. A coisa só “é” em sua essência, que certamente não se contém na nossa dimensão, pois nada pode “ser” enquanto existir um tempo que não “é”. Enfim, discussão para cinqüenta textos. Morra Parmênides!

    De qualquer forma, não sei se me fiz claro, mas trabalhar não tem essência independente. Trabalhar é um ato mundano que contém a essência do que é criar. Mas nós podemos criar, que é quando aspiramos mais alto, que nos faz igual a Divindade. Deus disse que criou o homem a sua imagem e semelhança. Está aí sua explicação. Aqueles que já leram outros textos meus sabem que acredito que somos fruto da imaginação Divina, que fomos imaginados e passamos a existir dentro da mens divina, por força exclusiva desta. Nós também podemos fazer isso, imaginar e fazer existir, mas com uma pequena diferença.

    O silêncio. Deus pode criar silenciosamente, e ele faz existir a essência imutável, que vaza para todas as ações em nosso mundo de sombras. Nós não. Nossa limitação física nos obriga a falar para criar, a escrever, registrar, pois não conseguimos meramente criar essências, a não ser que coloquemos suas idéias no papel. E aí vem uma questão maior. Deus criou tudo no mundo (stricto sensu desta última palavra, no sentido que damos a ela), logo tudo que nós criamos já existia como essência. Nesse caso, não estaríamos apenas descobrindo o que Deus criou? Ou não seríamos nós mesmos demiurgos de experiências que criamos? Ou ainda, não estaríamos na mens de um demiurgo, que ainda que tivesse uma sapiência infinitamente maior que a nossa, não seria ele próprio criação divina? A única coisa que me parece perfeitamente clara é que, seguindo esses degraus de ascendência, por fim descobriremos a existência de Um que criou tudo, a verdadeira Divindade.

    Está escrito na Bíblia que o Verbo se fez carne, e tudo que Deus criou foi falado. Não creio. Deus criou em silêncio, mas como não conseguíamos nós mesmos criar em silêncio, transpusemos para o papel o que fazíamos, para marcar nossa semelhança com o Divino, ainda que pequena. Mas como assim não podemos criar em silêncio? Você, paulista, deve estar em casa “ô loco, mano, fico aqui em silêncio sussa peinsândo nas minhas coisa, o mano não inteinde nada de criar”. Não digo que não possamos “pensar”, mas pensar é totalmente diverso de “criar”. Pensar se assemelha a refletir e é um mecanismo racional, criar não necessariamente é racional. Para pensar, você pensa em algo, mas criar é mais como “imaginar”, ainda que não igual. Imaginar não tem obrigação nenhuma. O Criador tem obrigações para com sua Criatura.

    Enfim, sei que estou tentando esmiuçar um assunto gigantesco, mas são só pontos importantes de serem abordados, e espero que alguém mais sábio e com mais humildade que eu um dia possa me explicar melhor isso. Talvez isso tudo seja uma busca egoística pelo conhecimento, talvez a necessidade de cristalizar uma reflexão, um conhecimento adquirido. Não crio nada novo aqui, apenas reflito e cristalizo minha reflexão. Apenas “produzo”. Se escrevesse uma história original, creio eu que aí sim, estaria “criando”.

    Enfim, o assunto principal desse texto era, como havia dito inicialmente, mostrar como trabalhar atrapalha minha vida (haha). Primeiro, posso dizer que trabalhar rejeita essencialmente o meu objetivo maior, que é me desprender do material, que é infeliz, vazio por si só (não mal! Não sou maniqueísta!), e me ligar mais ao abstrato. Se trabalhar é uma das reduções materiais da abstração “criar”, eu, ao trabalhar, me ligo mais ao material. Claro que não podemos deixar de trabalhar, mas nós trabalhamos muito hoje em dia. Para que? Para acumular dinheiro para comprar coisas e preencher o vazia que o próprio trabalha provoca, por não termos tempo para criar nada. Claro que essa falta de tempo afeta todos os seres humanos que querem criar algo, que não necessariamente são todos. Os seres humanos são diferentes uns dos outros. Alguns se contentam só com o trabalho. Outros aspiram coisas maiores, “criar” efetivamente, chegar o mais próximo possível da Divindade.

    No meu caso, eu desejo muito, mas não consigo. Mesmo no pouco tempo que me resta, não consigo “criar”. Por que? Porque estou cansado demais, até mesmo para pensar. E não há espaço para criar no mundo de hoje, pois não há tempo, e o ser humano corre contra o tempo, contra a morte. O problema é que isso é errado, e acabamos valorizando as coisas erradas. Nós só trabalhamos, não criamos e pouco produzimos. Porque temos esse parâmetro de sucesso determinado pelo tempo, que é uma coisa extremamente Ocidental. Estava lendo um livro de xadrez e, numa determinada passagem, o autor fala do xadrez como ele era nos territórios muçulmanos no medievo. Ele fala que o jogo podia durar horas, devido aos movimentos do bispo e da rainha, que eram diversos dos que foram adotados no Ocidente quase que imediatamente após sua chegada na Europa. Nós modificamos o jogo em diversos sentidos. Mudamos a forma como se movimentam as peças, e até mesmo a forma como o jogo é abordado por nós. Nosso dinamismo desenfreado fez com que trocássemos a abordagem islâmica de usar os primeiros 19 a 25 movimentos para organizar nossas peças no campo, por uma abordagem mais desenfreada, onde desde o começo o que determina o ritmo do jogo é a movimentação das peças do adversário.

    É a forma como o ocidental pensa sua relação com o Tempo e com o Espaço. O que determina o caráter de um povo, seu habitus, é justamente sua capacidade de se relacionar com o Tempo e com o Espaço. Como sua relação com o Espaço sempre foi precária: frio, inóspita, hostil, a Europa pré-civilização, e povoada de inimigos, fria e hostil, a Europa pós-civilizada (e, convenhamos, somos todos europeus); sua relação com o Tempo sempre se pautou por esta. Não poderia ser dado tempo as ameaças para que elas se concretizassem. E isso, de aproveitar o tempo da forma mais frenética possível, se tornou sucesso para o Europeu e para o Ocidental de uma forma geral.

    Não que não seja, mas o mais tradicional ditado atribuído aos norte-americanos expressa bem o que comprova o bom aproveitamento do tempo na visão do Ocidente: “time is Money”. Tempo é dinheiro, tempo bem aproveitado. Logo sucesso virou fazer dinheiro. Isto na verdade teve implicações muito profundas na história das sociedades, e determinou a ascensão ao poder da burguesia. A burguesia trabalhava, em contraposto a Nobreza, que era a classe ociosa, logo gerava dinheiro, que podia comprar o poder que já era deles pelo domínio que tinham sobre o Tempo, reconhecido pelo próprio gerar dinheiro. A partir do momento que eles reconheceram esta relação, tentaram dar validade política a ela e, através da Revolução Francesa, conseguiram. Acabara o tempo em que a ociosidade determinava a superioridade.

    Este ócio não é bem aceito no Ocidente. Tem por aqui o epíteto de vagabundagem. Concordo que o ócio de fato seja vagabundagem, mas vamos relacionar agora as duas análises, do abstrato com o material. Acredito, como já expresso, que a fala, o registro, enfim, a expressão, é o mecanismo principal de criação utilizado pelo ser humano. No entanto, trabalhar exaure o raciocínio, a reflexão, o pensar, exaurindo logo nossa capacidade de pensar e criar. Nos subtrai o “ócio criativo”! Quando há de surgir sob esse vil modelo capitalista que vivemos outro Adam Smith, John Locke ou semelhante?

    E por que cito eles? Porque acima de tudo eles eram generalistas, polímatas. Tinham tempo de refletir e de criar, e ainda sobrava tempo de produzir e trabalhar. Nosso modelo nos impede que sobre esse tempo justamente quando ele é mais necessário, em nossa juventude, onde tudo aprendemos e reproduzimos com a maior facilidade. Nosso sistema nos desgasta e impede que nós o revolucionemos, como esses homens fizeram no tempo deles. Eles não deixaram de trabalhar, só tinham uma rotina mais sadia, mais bem dividida entre trabalho e ócio, que para eles se tornava um momento de criação, como é inerente a todo “criador”.

    Enfrentada essa relação com o trabalho, passamos a outro questionamento. O ser humano “cria”. Mas por que eu afirmo que só se cria quando se coloca no papel, registra ou coisa parecida? Poderia repetir o argumento usado lá em cima, de que nós não temos a mens divina, mas essa é uma afirmação, um argumento, baseado na oposição entre dois fatores que foram aproximados para comparação. E uma comparação que ainda constatou a existência de uma semelhança entre a Divindade e nós. Vamos partir então pra outro argumento, que afirme por si só porque precisamos registrar.

    Nós não podemos “criar” criaturas de fato, liberá-las para ter suas próprias vontades, para que elas nos reconheçam como criadores e possamos fazer que nem a Divindade faz com a humanidade, se alimentando do próprio Amor que gerou no coração dos homens. Mas se até Ele precisa de um espelho, precisou compartilhar o mundo, por que com nós seria diferente?

    É, na verdade, exatamente igual. Vou pegar dois exemplos. Dragões e psicanálise. Ou melhor, o Diabo e a psicanálise. Hoje existe uma grande descrença no Senhor do Submundo. Mesmo que ele batesse na sua porta, poucos veriam, porque ninguém acredita que ele exista de fato, a não ser pelos religiosos. É aquele argumento do monstro de desenho de criança. A partir que se criam parâmetros que neguem a existência de uma coisa, ou que a existência dessa coisa seja negada por si só, seria como se esta coisa nunca tivesse existido ou não existisse, mesmo existindo. Como se nunca tivesse sido criado. As pessoas, e isso é óbvio, é que eu defendo a minha vida inteira, não enxergam a realidade, mas apenas a realidade que elas querem ver. Apenas sombras de uma realidade maior. Uma realidade verdadeira. Papai Noel é certamente mais real, com mais características, mais personalidade, mais profundidade que muita gente por aí.

    Por que citei a psicanálise? Porque a psicanálise também acredita nisso. Quando o paciente fala, ele reconhece seus problemas, ele “cria” seus problemas, no sentido de dar liquidez e certeza, para usar termos jurídicos, a eles e começar a trata-los, ou aprender a viver com eles. E não só isso. Para que alguém reconheça eles como parte de um mundo onde se vive, onde eles possam ser atingidos. Quando você fala do elefante branco na sala ninguém mais pode negá-lo. Ele está lá. A mesma coisa com as histórias do Sinbad e o Papai Noel. Todo mundo acredita neles. Eles têm personalidade, eles podem ser julgados, eles existem. Eles existem sim, num mundo que não é esse, mas existem dentro de uma lógica própria, dentro de um sistema próprio, hermético, que só pode ser julgado logicamente se existe ou não pelas suas próprias regras. Como eu disse, são reconhecidos.

    Esse reconhecimento que eu digo que, diferentemente de Deus, nós não podemos ter por nós mesmos, ou pelas nossas criaturas. E por isso levamos a nossos pares, e eles reconhecem a existência dessa lógica própria que governa ações (no sentido que eu dei anteriormente para ações), ou colocamos num papel e nunca mostramos a ninguém, mas nos impedimos de esquecer ou de deixar esquecer no momento que colocamos no papel.

    Isso nos leva ao último tópico que coloquei no esbocinho citado no começo do texto.

    A comunicação. A comunicação como instrumento de criação. A comunicação como instrumento máximo de poder, e as dificuldades que ela enfrenta para se impor soberana. Se comunicar é primordialmente estabelecer relações com pessoas e se expressar (resolvi adotar este vocábulo, é mais preciso) é criar, então se comunicar é, diversas vezes, estabelecer um vínculo que determina se a sua criação é mais do que uma produção para se sentir útil ou para alimentar seu próprio ego, mas uma Verdade, pois é reconhecida por mais de uma pessoa.

    O conceito de Verdade sempre é complexo, porque ele permeia todos os outros, mas não chega na materialidade terrestre. Minha arrogância diria que um rascunho do conceito de Verdade deveria conter uma análise profunda de todas as ações (no sentido dado por este texto a palavra) que geraram a Ação que está sendo estudada. Mas essa análise teria que ser ou extremamente dinâmica ou atemporal, pois esta Ação, a cada milésimo de segundo, se perde cada vez mais no passado (que é um conceito impossível) e na memória, que nos é falha.

    E é aí que entra a comunicação como instrumento máximo de poder. Comunicando, se expressando, logo criando, se determina o que é a Verdade. Peguemos um exemplo religioso. Como vocês já devem ter percebido, sou católico, mas vamos pegar este exemplo que é bom. Cristo pregou um determinado número de coisas, que não foram registradas por um gravador. Tendo sido um homem de influência, deixou seguidores para espalhar sua palavra. A espalhando, garantidamente, mudaram alguma coisa, nem que fosse para fins de tornar a Escritura mais didática. Mudaram a Verdade, criaram uma nova Verdade. Espalharam a fé como queriam.

    Os concílios que condenaram hereges nada mais queriam que eles se calassem, parassem de dizer mentiras, criar mentiras. No mundo de um herege, a lógica que funciona é outra, a Felicidade, bem Supremo para o ser humano, é perseguida de outra forma. E isso nos leva a primeira relação de poder que se estabelece pela linguagem, primeira de duas, que nada mais são que teorias derivas da perspectiva Huntingtoniana e da Marxista de enxergar a contemporaneidade.

    A primeira relação, a Huntingtoniana, é intercultural, abstrata, onde a gradação do poder se institui daquele que tem a cultura mais forte, mais cristalizada, para àquele que não a tem. Você pode pensar aqui no Monoteísmo cristão e sua relação com as religiões pagãs, na troca que se deu entre Roma e Grécia, com os primeiros praticamente adotando a cultura (e aqui cultura envolve tudo, desde o que você como ao Deus no qual você acredita) dos últimos. Um diálogo mais bem estruturado, mais lógico, ou mesmo só mais adequado a audiência possibilita a imposição de uma verdade entre todas.

    Mas essa primeira relação não pode ser analisada em detrimento da segunda. Pelo contrário, elas são complementares. Se você chega com armas, ou dinheiro, caso você seja menos Sarkozy, fica muito mais fácil impor qualquer coisa. Mas não é só isso. Pertencer a uma classe mais alta envolve todo um arcabouço cultural diverso, um arcabouço que está em sua maioria em livros, um arcabouço escrito. O das classes menos abastadas não é assim. É, na maioria das vezes, oral. Mas que diferença isso faz?

    É aquela questão da memória. Não memorizamos tudo, corrompemos o que acreditávamos a 5 minutos atrás para ser mais adequado ao que pensamos agora. Mas quando está escrito, muitas vezes nem precisamos nos lembrar. Uma cultura escrita tende a desenvolver melhor os argumentos que justificam as conclusões das teorias presentes nos livros, hermetiza mais o conhecimento, torna-o menos vulnerável, ou até mesmo invulnerável.

    Mas problemas de comunicação graves podem se dar acerca de concepções de mundo diversas, habitus diversos, línguas diversas (enfim, mentalidades diversas) quando aqueles dois que se comunicam pertencem a culturas (mentalidades) diferentes ou a classes sociais diferentes. Esse é justamente o ponto. A comunicação implica a relação de poder última, a quintessência do poder. Por que? Porque se expressar é criar.

    E como podemos analisar isso? Peguemos o caso de Menocchio, um moleiro da idade média cujas ideias foram tema do livro O Queijo e os Vermes de Carlo Ginzburg. Este livro nada mais é do que a prova material de que a comunicação é a explicitação ulterior de uma relação de poder. O que motiva tanto os inquisidores que condenaram Menocchio quanto o autor do livro a penetrar profundamente nesta cosmogonia tão específica nada mais é a discrepância entre as perguntais feitas pelos primeiros e as respostas dadas pelo moleiro.

    Como se respondesse a perguntas totalmente diversas, perguntas que não foram feitas, Menocchio explicita sua original cosmogonia, para surpresa dos inquisidores. Menocchio, orgulhoso de si mesmo, nos revela uma formação cultural diversa, mas estritamente marcada pelo seu pertencimento a uma classe que, ainda que não pobre, estava longe de ser nobre. Toda essa falta de acesso a uma educação formal, clássica, das classes superiores, lhe dão um instrumento de leitura, uma ótica, uma capacidade de interpretação, totalmente diversa da padrão, da consensual, do acordado. E isso faz com que esta interpretação seja, por sua vez, totalmente diversa da padrão, da consensual, do acordado.

    Mas Menocchio é o exemplo da relação de poder Marxista, material, onde por fim os mais poderosos impõem sua forma de pensar, como fizeram ao assassiná-lo. Por que excluo a relação Huntingtoniana aqui? Porque, apesar de reconhecer que existiam culturas diversas, uma popular e uma erudita em choque, vejo essas relações culturais como determinadas pelas relações socioeconômicas. O pensamento de Menocchio muitas vezes é classista, mas não só isso. Sua visão, sua interpretação dos textos, é classista, pois a ele não foi provida uma educação clássica que enquadrasse sua ferramenta interpretativa a de seus iguais, europeus.

    A relação Huntingtoniana é muito diversa. É basicamente o que Huntington disse, no puro, mas vista sob uma ótica comunicacional. Huntington foi o cara que criou a teoria de que, no futuro (dele, a.k.a. presente for us), as lutas não seriam mais entre nações, mas entre culturas, teoria que está obviamente certa, bastando que analisemos que o mundo se divide entre dois polos, Ocidente (esse se divide em dois subpolos, Américas (e, geograficamente, Austrália) – EUA, se você preferir – e Europa Ocidental – não estou certo se a Oriental gera um novo subpolo -, que se esforça pra pelar os EUA) e Islã, e três (ou quatro) subpolos, Extremo Oriente (China e Japão) e África (e talvez Rússia e Europa Oriental, não estou certo), e que esses polos e subpolos são diferentes CULTURALMENTE, e vivem saindo na porrada. Claro que existem diferenças econômicas, mas mesmo que todo mundo fosse rico, eles ainda compreenderiam o mundo de forma TOTALMENTE diversa uns dos outros. E provavelmente continuariam saindo na porrada, ainda que com menos constância.

    A grande questão é que, partindo de uma ótica materialista, se formos analisar esses conflitos, sempre caímos num beco sem saída. Aliás, vamos ver esses dois sentidos da palavra materialista. Podemos usá-la para designar a teoria marxista. Um exemplo de que ela não se impõem inconteste ao alegar que o que determina tudo na vida é a riqueza econômica ou a falta dela é a Primeira Guerra Mundial. Geral bem estabelecido. Tinham partilhado toda a África. A Alemanha tinha crescido 600% (ou 400%, enfim, muito) desde 1871, a Inglaterra ainda era uma potência colonial, os EUA tavam felizões isolados. O que fez com que elas entrassem em guerra? Vou deixar G. K. Chesterton responder essa:

    “Eu estou mais convencido do que nunca de que a Grande Guerra aconteceu porque as nações eram muito grandes, e não porque eram muito pequenas. Aconteceu especificamente porque as grandes nações queriam se tornar o “Estado Mundial”. Mas aconteceu, acima de tudo, porque tudo que é tão vasto quanto um império é, ao mesmo tempo, frio, vazio e impessoal. NÃO foi apenas uma guerra de nações; foi uma guerra de internacionalistas beligerantes.”

    Percebe-se, se seguirmos a lógica do pai do Distributismo que nenhum motivo meramente material guiou o mundo para ir pra guerra. Ainda que pensassem no dinheiro, era só pensar que, eventualmente, trabalhadores morreriam na guerra, mesmo que fosse uma guerra de uma semana. Alcançada a vitória em uma semana, se diminuiria o poder da nação rival, mas esta não seria dominada (os europeus não faziam mais isso nessa época, mesmo porque o risco de revoluções seria grande numa época onde os nacionalismos estavam pegando fogo), então sua população não poderia ser escravizada. Morrendo trabalhadores, seu poder econômico diminuiria, porque haveria menor incorporação da mais valia. Mesmo que isso ocorresse com as duas nações, não seria vantagem pra nenhuma delas, pois as duas ficariam mais fracas frente àquelas que não se envolveram no conflito. Mesmo que uma pagasse uma indenização para a outra, essa indenização não seria suficiente, pois dinheiro não faz os homens nascerem. Enfim, as nações poderiam ter lucrado muito mais na paz. Só lucra com guerras o fabricante de armas, e os fabricantes de armas não sustentam um país, por maior que seja seu poder econômico. Não podem nem sequer pagar um suborno que o grupo de empresas que prosperam durante a paz e empobrecem durante a guerra poderiam pagar para que a guerra não fosse feita.

    Ainda que possam ter se enganado acerca das vantagens econômicas da guerra, certamente havia um instinto aí, de dominação. Ao mesmo tempo, não podemos desprezar a influência da linha marxista aí. Não se fazia a guerra para ser mais rico, somente, mas principalmente o contrário. Se fazia a guerra porque se era o mais rico, logo se deveria ter mais poder. Mais ou menos o que aconteceu com os burgueses durante a Revolução Francesa. Mas como se demonstra o poder? Impondo sua visão de mundo. Através da expressão. Os americanos não são os mais poderosos do mundo só porque tem o maior exército, ou porque tinham a economia mais pujante, mas porque implantaram uma cultura mundialmente que, ainda que vinculada intrinsecamente as suas indústrias, era uma cultura, uma visão de mundo específica. É só você pensar que, ainda que o core seja americano, muitas das coisas que nos definem como ocidentais contemporâneos ainda são provenientes dos Estados falidos da Europa, ou de civilizações mortas. O que nos define, nos delimita, ainda e acima de tudo, é nosso pertencimento cultural.

    E é justamente essa cultura que se cria através da expressão e que entra em embate com outras culturas.

    Ainda que essas duas relações de poder derivadas da comunicação se entrelacem de forma complexa, é possível ver diferenças nelas. Poderíamos, de uma forma geral, dizer que a interclasse é analisada dentro de um microcosmo especificado e a intercultural em um macrocosmo. Mas esses modelos estão longe de ser absolutos. Tem casais que, por virem de meios diferentes, de culturas diferentes, ainda que tendo situações econômicas menos discrepantes que o esperado, valorizam virtudes diferentes e poderíamos dizer que os combates que acontecem dentro deste microcosmo derivarão muito mais de uma relação de poder comunicativa intercultural do que uma interclasse. Preponderarão elementos do choque intercultural, em detrimento do interclasse, sintetizando.

    Ao mesmo tempo, poderíamos apontar situações onde ocorre o choque interclasse entre nações diferentes, como conflitos entre alguns países na África. Ainda que neste continente muitas das guerras sejam determinadas pela origem étnica (cultural) diversa, muitos são determinados majoritariamente por fatores socioeconômicos.

    Sintetizando mais uma vez, nas relações de poder interclasse temos uma preponderância de fatores socioeconômicos. Na intercultural, de fatores culturais. Estas relações, quando conflituosas, servem justamente para definir quem vai impor sua visão de mundo. Esta visão de mundo é criada. A única forma de cria-la é fazendo com que outros a reconheçam. A única forma de criar é se expressar.

    Vou publicá-lo, como sempre, sem revisão. Escrevi esse texto em 3 períodos de tempo, nos quais só sentei e coloquei no papel o que pensava. Acho que esse método conserva a pureza do pensamento e permite que ele seja criticado com mais facilidade. Um raciocínio criticado nas suas bases pode ser consertado nas suas bases.