quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Ovo

Você estava a caminho de casa quando morreu.

Foi em um acidente de carro. Nada muito chamativo, mas infelizmente fatal. Você deixou sua esposa e duas crianças. Foi uma morte sem dor. Os para-médicos tentaram de tudo para te salvar, mas em vão. Seu corpo foi completamente destruído, você já esteve melhor, pode acreditar.
E foi aí que você me conheceu.

"O que-... o que aconteceu?" Você perguntou. "Onde estou?"
"Você morreu," Eu disse, com naturalidade. Não fazia sentido conter as palavras.
"Havia um caminhão.. e ele derrapou.."
"Isso aí," Eu disse.
"Eu.. Eu morri?"
"É. Mas não se sinta mal. Todo mundo morre," Eu disse.
Você olhou em volta. Não havia nada. Só eu e você. "Que lugar é esse?" Você perguntou. "Isso é o paraíso?"
"Mais ou menos," Eu disse.
"Você é Deus?" Você perguntou.
"Isso ai," Respondi. "Eu sou Deus."
"Meus filhos... minha mulher," você disse.
"O que tem eles?"
"Eles ficarão bem?"
"É isso que eu gosto de ver," Eu disse. "Você acabou de morrer e sua maior preocupação é a sua família. Isso é mesmo uma coisa boa."

Você olhou pra mim com um certo fascínio. Pra você, eu não parecia com Deus. Eu aparentava ser um homem qualquer. Ou uma mulher. Uma figura autoritária meio vaga, talvez. Mais como um professor de português do que o Todo Poderoso.

"Não se preocupe," Eu disse. "Eles ficarão bem. Seus filhos lembrarão de você como um pai perfeito em todos os sentidos. Eles não tiveram tempo de sentir algo ruim por você. Sua mulher vai chorar, mas vai ficar secretamente aliviada. Pra ser sincero, seu casamento estava desmoronando. Se serve como consolo, ela vai se sentir muito culpada por se sentir aliviada."

"Ah.."Você disse. "Então o que acontece agora? Eu vou para o Céu, pro Inferno ou alguma coisa do tipo?"
"Nenhum dos dois" Eu disse. "Você vai reincarnar."
"Ah," você disse. "Então os Hindus estavam certos,"
"Todas as religiões estão certas de alguma forma," Eu disse. "Venha comigo."
Você me seguiu enquanto caminhavamos pelo vazio. "Aonde estamos indo?"
"A lugar nenhum específico," Eu disse. "Só gosto de andar enquanto conversamos."
"Então que sentido isso faz?" Você perguntou. "Quando renascer, eu vou esquecer tudo, não é?" Um bebê. Então todas as minhas experiências e tudo que fiz nessa vida não significaram nada."
"Não é por aí!" Eu disse. "Você tem dentro de você todo o conhecimento e experiências de todas as suas vidas passadas. Você só não lembra dessas coisas agora."

Eu parei de andar e coloquei as mãos em seus ombros. "Sua alma é mais magnífica, linda e gigantesca do que você possa imaginar. Sua mente humana pode apenas entender uma pequena fração do que você é. É como colocar o seu dedo em um copo de vidro e ver se está quente ou frio. Você coloca uma pequena parte de você em jogo, e quando tira, você percebe que aprendeu tudo que podia por lá.
Você foi um humano nos últimos 48 anos, então ainda não deu tempo de você perceber o resto da sua imensa consciência. Se nós ficarmos aqui por muito tempo, você começará a lembrar de tudo. Mas não faz sentido fazer isso entre cada vida."

"Quantas vezes eu já reencarnei, então?"
"Ah, muitas. Muitas e muitas. E em muitas vidas diferentes." Eu disse. "Dessa vez, você será uma camponesa chinesa no ano 540 D.C."
"Es-espera aí, como?" Você gaguejou. "Você está me mandando de volta no tempo?"
"Bem, tecnicamente. Tempo, da forma como você conhece, só existe no seu universo. As coisas funcionam de outro jeito de onde eu venho."
"De onde você vem?" Você disse.
"Ah claro, " Eu expliquei "Eu venho de algum lugar. Um lugar diferente. tem outros como eu. Eu sei que você quer saber como é lá, mas honestamente, você não iria entender."
"Ah," Você disse, um pouco desanimado. "Mas espera. Se eu reencarno em diferentes lugares no tempo, eu poderia ter interagido comigo mesmo alguma vez."
"Claro. Acontece o tempo todo. E já que as duas pessoas tem apenas consciência da sua própria vivência, você nunca sabe que está acontecendo."

"Então, qual é o sentido?"
"Ta falando sério?" Perguntei. "Sério? Você está me perguntando o sentido da vida? Você não acha isso meio clichê?"
"Bem, é uma pergunta plausível," Você persistiu.
"Eu te olhei nos olhos. "O sentido da vida, motivo pelo qual eu criei todo o seu universo, é para que você amadureça."
"Você ta falando da humanidade? Você quer que nós amadureçamos?"
"Não, somente você. Eu fiz todo esse universo para você. Para que em cada nova vida você cresça, amadureça e se torne um intelecto maior."
"Só eu? E as outras pessoas?"
"Não há mais ninguém," Eu disse. "Nesse universo, só existe você e eu."
Você me olhou com um olhar vazio. "Mas e todas as pessoas da Terra..."
"Todos são você. Diferentes encarnações de você."
"Que? Eu sou todo mundo?"
"Agora você está entendendo, "Eu disse, te dando uma tapinha nas costas.
"Eu sou todo ser humano que já viveu?"
"Ou quem irá nascer, sim."
"Eu sou Abraham Lincoln?"
"E você é John Wilkes Booth, também, " Completei.
"Eu sou Hitler?" Você disse, horrorizado.
"E também é os milhões que ele matou."
"Eu sou Jesus?"
"E também é todos que o seguiram."
Você ficou em silêncio.

"Toda vez que você enganou alguém, " Eu disse, "você estava enganando a si mesmo. Cada ato de bondade que você teve, foi feito para consigo mesmo. Cada momento feliz e triste que você teve com qualquer pessoa foi, e será, aproveitado com você."
Você ficou pensando por um longo tempo.
"Por quê?" Você me perguntou. "Por que fazer tudo isso?"
"Porque algum dia, você será como eu. Porque é isso que você é. Você é um dos meus. Você é meu filho."
"Nossa," você disse, incrédulo. "Quer dizer que sou um Deus?"
"Não, ainda não. Vocé um feto. Você ainda está crescendo. Quando tiver vivido todas as vidas humanas em todas as eras, você terá crescido o suficiente para nascer."
"Então todo o universo," você disse, "é somente..."
"Um ovo." Respondi. "Agora é hora de você ir para sua próxima vida."
E eu enviei você de volta.


The Egg
Written by Andy Weir
Translated by Carlos Buosi

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Capítulo 2 - Para onde todas as coisas vão

Todas as coisas representam ética, e são alguém - ao passo que se tornam política, e então, tornam-se disputa; deixando, então, de ser qualquer coisa. Mas eventualmente voltam a ser.

Eventualmente, neste mundo, os seres se preocupam com o que são, e se encontram no próprio turbilhão de questões respectivo ao seu modo de ser, correto/errado, vantajoso/desvantajoso. E praticam o que são - Mas não o fazem sozinhos. Assim, ética se torna política.

Ora, o problema, caro Ent, como você pode ver, é que, assim que os seres acham que são apenas aquilo que os outros designam, é que a direção desta corrente se inverte. A política deixa de ser função da ética, e a ética passa a ser função da política, e não do próprio ser ao qual deveria servir.

Os seres tendem então a se perder em suas disputas, pois para eles, algumas vezes mais do que outras, o que os outros pensam sobre alguém ou sobre si tem mais importância que o próprio pensamento. Um país se divide durante uma eleição tal qual se divide durante um jogo entre dois grandes clubes rivais, com duração um pouco maior (algumas semanas) apenas.

Você vê, as pessoas acham que o que estão fazendo é tentando descobrir qual o candidato certo; qual o candidato menos pior; qual o mais ou menos desvantajoso; quais posicionamentos são mais ou menos adequados - como se isso fosse uma busca própria pela verdade verdadeira, ou por uma escolha fidedigna ao que acham que são ou como as coisas devem ser, por um instinto de validação de uma existência baseada no que os outros acham de si.

E quando muito o fazem; na maioria das vezes, arbitrariamente escolhem uma bandeira e a defendem com unhas, dentes, piadas infames e ataques sórdidos compromissados em ocultar a verdade propositalmente - o que é bem diferente de apenas ser descompromissados com a verdade. E ambos os lados fazem isso, cada um consultando seu próprio turbilhão de questões véticas e pescando o que conseguem dali para embutir no bojo de todas as questões. Tem que apelar.

Ironicamente, você vai ter a oportunidade de reparar (se, é claro, você não escolher nenhuma bandeira), que o que se faz com esse modo de ser submetido ao outro é que os bandeirantes de A nada conseguem fazer senão reforçar a ambos B e A que já estão certos sobre suas escolhas - ou seja, nem sequer convencem a alguém. No fim, as pessoas acabam escolhendo lados por coação/coerção e  persuasão, e quase nunca por convencimento, do mesmo modo que futebol.

Cara nasce em berço flamenguista, só há alguns cenários possíveis - se torna flamenguista por coerção ou persuasão da família, talvez mude para botafogo por causa da galera da escola (persuasão), quem sabe para o Vasco por causa daquele tio sacana que talvez seja o único que te dá atenção, ou seja, também por rejeição à tentativa de coerção familiar. Ninguém se torna sofredor por motivos racionais, se futebol fosse isso todo mundo torcia pro Barcelona e foda-se o futebol brasileiro.

Do mesmo jeito, na política não tem muito de racional. O que existe é um teatro onde as pessoas fingem se convencer de coisas sobre economia, educação, saúde e direitos como forma de agenciamento, por que todo mundo tá afim mesmo é de sair no lucro no jogo de quem sabe mais o que é melhor pro futuro do país, e desde muito antes já escolheram seus times para torcer.

Em algum momento desses - principalmente se você, ao contrário disso, escolher uma bandeira - você pode se pegar em dúvida a respeito de como tudo isso veio parar aonde está. Outro, caso resista à bandeiragem, pode se sentir impelido a adotá-la. É como se todos os amiguinhos estivessem brincando de pique, e você não. Mas você pára e se pergunta "porra, que que eu ia fazer mesmo?" - como que acordando de um devaneio sobre coisa qualquer que o distraiu na internet enquanto trabalhava; e fica estarrecido quando dá de cara com uma página de pornografia bizarra.

E no fim das eleições, toda essa emoção passa; as pessoas deixam de ser inimigas por razões irracionais, voltam a ser amigas - quem sabe isso também não seja teatro. A ética, quem sabe, passe a não importar mais muito.

Todas as coisas vão parar no gol.

domingo, 21 de setembro de 2014

Feliz Aniversário

Meu corpo de dor voltou. Desde o dia 15 eu me sinto estranho, mas tem piorado. Aquela sensação de corpo de dor antiga talvez tenha sido reativada por uma programação que eu tenho de desfazer, que é a de que meu aniversário é uma data triste.

Um aniversário deveria ser, teoricamente, a data aonde se comemora o nascimento - e portanto o fato de alguém viver (ou ter vivido) a partir deste. Na verdade, todo dia deveria ser seu aniversário.

Eu me sinto como se meus aniversários anteriores tivessem sido a exultação dos dizeres acumulados durante o ano que o precedeu de que eu era, em essência, algo inferior a um escravo - um boneco, que um tirano qualquer que se denominasse pai ou mãe ou responsável, afim de reclamar autoridade sobre mim, poderia fazer a merda que quisesse ou me obrigar a fazê-la. Já que este paga minhas contas.

Nesta ocasião, as pessoas me presenteavam de coisas que julgam que eu preciso ou quero, sem nunca terem me perguntado nada a respeito - pois é claro, como poderiam; não me conhecem, e afinal criança não tem querer. Neste estranho ritual, celebrava-se a minha ausência de personalidade e vontade chamando pessoas que eu não gosto para comemorar o meu nascimento me dando coisas que eu não quero e conselhos inúteis ou nocivos. Só posso concluir que o meu nascimento teve, então, alguma utilidade sádica na mente deles.

Fico velho e resolvo não mais compactuar com esse tipo de prática. Me chamam de ingrato.

O que dói mais não é a contradição nem o cinismo; é que no fundo, apesar de toda mágoa, eu queria que tivesse sido diferente.

domingo, 24 de agosto de 2014

Capítulo I - Dos Aldarianos

"Aldaris estava, aparentemente, em guerra. 
Eu percebi a guerra, e no princípio, não me dei conta de que poderia desejar a paz.
E então eu me dei conta, e então eu de fato desejei a paz. 
E eu disse a aldaris que queria a paz, e lhe acalmei com felicidade e amor.
E do amor, percebi que eu e aldaris éramos um, e eu também fui aldaris. 
E sendo aldaris, acalmei meu coração e também desejei a paz. 
E estive, então, em paz.
E a paz foi.
E, no silêncio de sua eterna compania, o fato de ser bastou."

Ditado do Ancião da Colina


            Havia, minha neta, certa época, um povo vivendo a noroeste da Terra Distinta. Tal povo possuía uma peculiaridade bastante inusitada: todos os habitantes eram o mesmo habitante.

            Era difícil aos homens comuns daquela época compreender que os habitantes de Aldaris se entendiam uns aos outros como a mesma pessoa; eles tentaram explicar, certa vez, reza a lenda:

Imagine, que, num sonho desses, com algumas pessoas você conversa. Se este sonho acontece na sua mente, dentro da sua cabeça, ora, de modo simples, então aquelas pessoas são, na verdade, você. Com a certeza de que são outro, mas ainda você. Conosco é assim: somos o mesmo sonhador, que é tudo o que é e todos que são; e você seria um de nós também, se percebesse.

            Nesse livro também conta-se que era um povo extremamente desenvolvido, sábio e avançado; o que um sabia, todos sabiam, já que todos eram o mesmo. Não havia segredos, nem mentiras que os protegessem; assim, amar não implicava em sofrer. Dizer a verdade, curiosiamente, não era por vezes sequer educado - era, o ato de pôr nas diminutas dimensões da palavra estática aquilo que já era profundo saber da experiência dinâmica, algo grosseiro; como tomar o cristal que transcende a condição de rocha e fazê-lo um conjunto de planos e arestas translúcidos.

E isso não vinha a ser o mais intrigante aos olhos dos outros. Os aldarianos viviam muitos séculos, por vezes chegando aos 2000 anos; nasciam, raro, mas com condições de colheita favoráveis, nasciam, permitia-se filhos. E os jovens eram indivíduos, que, após longos anos, eventualmente abdicavam de sua identidade, depois de tê-la formado e tê-la experienciado das trevas à luz por completo; e assim ingressavam na Unidade.

            Na verdade o que o homem comum não conseguia entender era como pode o aldariano ser nascido indivíduo. As crianças do homem comum, em contraste, não eram entendidas como indivíduos, porém como objetos animados com a potência de indivíduo; o que exemplifica em parte sua educação com princípios de militarização.

            Khabral, o grande dragão-lich, com toda sua força e raiva, não era capaz de penetrar os escudos de força que circundavam o Vale de Ûr, livre-capital de Aldaris. Era também curioso que os aldarianos dessem o mesmo nome para sua terra, seu deus e seu povo. Não era, no entanto, surpresa que não houvesse governos por lá, apesar haver distinção entre os trabalhos realizados pelos mais velhos por questões meramente corporais; mas todos sabiam fazer de tudo, e o que precisavam fazer e quando, e o faziam sem precisar de ordens. Khabral tentou fazer de tudo - desenvolveu e jogou pragas e envenenou os rios do noroeste da Terra Distinta. Aldaris assimilou as pragas ao seu ecossistema, reajustando o equilíbrio de plantas e animais para acomodar as pragas; não foi difícil criar também uma usina de despoluição, que aliás, produziam, com adequado tratamento, ótimo adubo. Qualquer que fosse a maneira com que se tentasse produzir uma forma de desequilíbrio, a Unidade se reconfigurava afim de acomodar as novas variáveis, e a harmonia era rapidamente restaurada de maneira natural.

            Por eras e aeons avante o povo aldariano passou sem grandes problemas sua estadia na Terra Distinta, por maiores que fossem as violações para além de suas terras, visto que para qualquer outra nação ou raça seria impossível produzi-los qualquer mal.

Vô, o que é um Aeon?

            É uma forma de dizer Era, mas aqui quer dizer menos com relação ao tempo e mais com relação à sensação que os homens têm de seu tempo.

            Ah, entendi.

            Há que se comentar que em Aldaris nunca se oferecia ajuda. Costumava-se dizer que era por que aldarianos eram egoístas e só ajudavam a si próprios, a quem eles compreendiam exatamente como ajudar; o silêncio escondia uma profunda humildade. Em Aldaris todos tinham a plena certeza de que o único jeito de ajudar alguém é dizendo aquilo que ela precisava ouvir; e só era possível saber isso a partir da própria pessoa. Portanto, só se ajudava a quem pedisse ajuda. No entendimento deles, era uma grande arrogância achar-se na prerrogativa de capaz de ajudar a alguém - na verdade, eles acreditavam que ninguém pode ajudar a ninguém de fato, porém apenas compartilhar o seu mais autêntico e verdadeiro ser, e assim, permitir que o outro ajude a si mesmo.

Além do mais, eles sabiam que havia um grande risco em oferecer ajuda a outras pessoas: o de que elas projetassem, na pessoa que oferece, a própria responsabilidade pelo seu desenvolvimento, deixando assim de viver o processo e falhando inevitavelmente. E por fim, haviam ainda alguns indivíduos cuja identidade não estava autocentrada e alegavam estar à procura de ajuda, quando na verdade procuravam atenção e aceitação - e, analogamente, haviam pessoas que ofereciam ajuda aparentemente sem esperar nada em troca (tal como deveria ser), porém esperavam aceitação e aprovação por suas ações. Em Aldaris, isto não é ajuda, porém é um grande empecilho para a vivência plena; a falsa ajuda não apenas não ajuda, ela atrapalha.

            Portanto, exceto em casos muito particulares e quanto a alguns indivíduos bastante específicos, Aldaris jamais interferiu fora de seus domínios. E por isso - na verdade, muito mais por medo do que por isso -, também não se ofereceu ajuda ao povo Aldariano quando ocorreu a Partida; e os aldarianos também não pediriam ajuda, porém tentariam lidar com aquilo como sempre fizeram.

            Hum. Você vai gostar dessa. Sempre intrigou e divertiu aos aldarianos a quantidade de peripécias que os humanos comuns criavam para fazer as coisas parecerem diferentes – para melhor ou para pior do que realmente são. Em Aldaris não se achava necessário o espaço para uma escola, algo que era imprescindível para os homens; lá entendia-se que era absurdo que a experiência de viver precisasse de algo que não a própria experiência de viver para que fosse devidamente assimilada.

Já os homens separavam-se em  lugares, em ante-salas da vida, com o intuito de educar suas crianças, como se elas não fossem capazes de aprenderem sozinhas o que quisessem; e nisso, as obrigavam a aprender o que eles achavam importante, independente do que elas achavam. Os adultos, com seu orgulho, também não aceitariam que rissem das suas preciosas aulas. Até se fazia rir em sala, mas meramente com o intuito de passar por debaixo da porta um outro conceito ou informação goela abaixo.

Ninguém gostava da escola, mas todo mundo a achava imprescindível. Todo mundo achava que a escola tinha inúmeros problemas, mas ninguém assumia a responsabilidade por eles. Então ela sempre sobrava nas costas de quem tinha menos condição de ser escutado, os pobres, as crianças, os pais das crianças, até mesmo os professores. Para os aldarianos isto não passava de uma bagunça sem sentido, mas eles entendiam que fazia parte do destino dos humanos entender e superar suas diferenças. Mesmo com um intervalo de tempo para viver tão curto, isto seria possível, contanto que as gerações fossem aprendendo com os erros das anteriores. Os humanos em geral ensinavam seus acertos, e assim muitas vezes o modo como o acerto foi conseguido – justamente a parte mais importante – era deixado de lado. Tá com sono?

Uaaahhh tô quase dormindo.

Então vamos continuar amanhã de noite.

Vô, por que o livro fala homens? Não tinha mulheres nesse mundo?

Hahaha, essa é uma ótima pergunta, minha jovem. Bem que havia, mas você vai ver ao longo do livro que os homens... e também as mulheres... de tempos em tempos nutriam a ilusão de que podem ser governados, e então, a de que podem ser libertados. E nessa ilusão, aquele que é entendido como o governo, é o centro da história, é aquele que observa e julga a todos os outros, que se tornam apenas objetos de sua observação. Não exatamente indivíduos, apenas satélites. Então fala-se de uma história dos homens, e não dos humanos comuns; e o mero fato de se falar assim já diz um pouco sobre eles.

Ainda bem que nós Hobbits não temos isso né.

Entre nosso povo, não, realmente. Temos outros problemas na nossa vida.

O povo da Tormenta ia para a escola?

Elanor, isso é uma história bem mais complicada. Por que não continuamos amanhã, o vô é prefeito e tem que trabalhar, e a senhora muito se beneficiaria de uma boa noite de sono antes do seu campeonato de futebol.


Tá boom, boa noite vô. Harya vanima aurë.

            Doces sonhos.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Senta lá

De dia podemos estar num lugar que consideramos bastante silencioso - como num estúdio de música que tem fundo de ruído de menos de -30dB - e de madrugada podemos achar aquilo barulhento. E se vamos para o campo, aquilo é ainda mais barulhento.

John Cage, quando entrou na câmara anecóica, o lugar mais silencioso que haveria na terra, se surpreendeu com o som estrondoso do próprio corpo.

Fisicamente, o silêncio absoluto não existe - ele é sempre referencial. Ele é mental.

Meditar, enquanto o ato de silenciar a mente, é silenciar os pensamentos, portanto colocar todos os sons percebidos e virtualizados numa paisagem, e deixá-los morrerem por um momento nesse lugar de fundo. Nenhum deles é selecionado e todos fazem silêncio, ao não serem figura em relação a esse fundo.

É chamar o ego de Cláudia e mandá-lo sentar lá.

Sombra da Alma

Aonde foi você que eu conheci
Aquela garota assustada com o mundo
Cheia de sonhos e um filho pra criar
Os óculos de fundo de garrafa
São agora memória nublada
Daquela esperança que não veio a ser
Sonho que veio a adoecer
E morreu em mim

Aonde foi você que eu não conheci
Memórias vividas na imaginação
Cristalizadas em fotos de raros momentos
De portas abertas sorriso a dentro
Mostrando a alma vibrando e um coração
Como será que seria sem Eu
Você voaria livre ou se afundaria de vez?
Como será que seria sem ti
Seria mais fácil ser órfão de verdade do que de mentirinha?

Estive sozinho todo esse tempo
Criado na rua sem a tua presença
E quando voltaram percebi
Que já não fazia mais diferença
Vive hoje a sombra da alma que se perdeu
A vagar num mundo que não percebe
Tateando por aí o caminho de volta pra casa
Aonde foi você?

sábado, 12 de abril de 2014

Ying Yang

A impressão que temos de que a matéria é condensada é uma ilusãozinha. Os elétrons ficam voando ao redor do núcleo, que é pequeno em relação à órbita eletrônica. As coisas parecem bem duras e densas de onde vemos elas, mas na verdade elas são bem mais vazias do que parecem.

Se a matéria fosse feita dos núcleos em si apenas, não seria nada parecido com o que é, seria provavelmente sem forma e sem as propriedades que conhecemos que acontecem da distância e da separação e divisão. Não fosse essa "ilusão", seríamos apenas uma massa amorfa e sem forma.

Um bloco de mármore não é uma estátua até que lhe tirem pedaços.
É o que se chama de esculpir: a forma surge quando se tira partes afim de propor limites diferentes. Ou mesmo, propor limites.

As trevas são basicamente a ausência de luz.
As luzes se espalham para todos os lados que podem a partir da fonte. As sombras estão nos lugares aonde a luz não atingiu.

As trevas são os pedaços de mármore tirados para que haja a forma.
Não existiríamos sem as trevas. São as trevas que nos dão a forma.

Não excluiremos as trevas. Mestraremos ambos luz e trevas, e assim seremos mais, incondicionais. Só assim a escolha pela luz fará parte da Harmonia.

Tu és pó de estrelas. De luz somos feitos e à luz voltaremos.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Harmonia

Toda onda naturalmente produzida entrega consigo um conjunto de harmônicos para além da frequência fundamental. Se esses harmônicos são múltiplos inteiros da fundamental, então temos uma série harmônica e é possível perceber uma nota - por que os harmônicos que soam junto da frequência fundamental não realizam interferência destrutiva na onda resultante de modo que a descaracterize.

A configuração das intensidades destes harmônicos entregues juntamente com a frequência fundamental é chamada de timbre  - esta configuração altera o desenho da onda resultante da soma de fase dos harmônicos com a fundamental. Por esta razão podemos distinguir sons diferentes na mesma frequência.

Música é a atividade humana que consiste da seleção de sons e organização destes com a intenção de dramatização.

Harmonia é a sensação provocada pela organização de sons cuja frequência é proporcional, isto é, é igual senão pela multiplicação de um escalar inteiro (100hz, 200hz, 300hz, 400hz, etc harmonizam). A percepção da harmonia entre dois sons prescinde o entendimento de que dois sons soam bem juntos e são parecidos.

A idéia de organização dos sons é feita com a intenção de dramatização, mas de onde vem a sensação boa provocada pela harmonização em si?

O budismo nos diz que tudo é ilusão; bem, a faixa de sons que ouvimos é bastante limitada, e mais ainda é a faixa de comprimentos de onda luminosa que enxergamos. A verdade é um sonho impossível: para sabermos a verdade holística, ulterior e transcendente, seria necessário tudo saber - tudo o que já aconteceu, acontece e acontecerá, e tudo o que for durante todo o tempo em que o universo vier a ser. O que é impossível, visto que a percepção é limitada (entre outros motivos).

O que a organização e a sistematização permitem é que haja um vislumbramento de um todo mesmo que não haja a percepção de parte de seus elementos. A partir da experimentação dos fragmentos presentes na natureza, os químicos foram capazes de desenhar o modelo da tabela periódica, prevendo a existência de elementos que ainda não existiam ou não haviam sido descobertos.


O que há de belo na harmonia é portanto a verdade transcendente vislumbrada por trás da possibilidade de todos os sons, que é sentida na combinação de dois (dentre inúmeros possíveis) sons que somam construtivamente suas fases e harmônicos - entregando toda uma série harmônica junto que é percebida, conscientemente ou não.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O amor é meu escudo

Para uma velha senhora.

O amor é meu escudo.
Eu sei o que você é, conheço você, sei o que você quer e sei que não é coisa boa.
Eu sei pelo que você passou, sei o que tem acontecido, sei por que você está nessa.
Não, eu não tenho uma solução para sua vida, não posso te ajudar, só você pode ajudar a você mesma.
Não é que eu não queira ajudar a você, é que eu não sou nenhum anjo. E mesmo que eu fosse, não poderia lhe ajudar assim mesmo.
Na verdade ninguém pode ajudar a ninguém, senão a si mesmo. O máximo que pode fazer é compartilhar o próprio ser com o outro, e se o outro quiser, ele pode se ajudar a partir disso.
Não, eu não tenho medo de você. Apesar da cara feia.
Eu sei o que você é, eu conheço você, e é só assim que eu aceito exatamente o que é.
Eu aceito isso por que eu amo você.
Eu amo você por que eu sou você.
Eu sou você por que eu sou Deus, e Deus é você também. Eu sou Sua mão esquerda, e você é Sua mão direita.
Você não pode fazer nada a mim, não pode me machucar, não vai me ferir, só a você mesma.
Eu sei o que você é, e você está comigo no meu coração.
E por isso eu te deixo ir agora.


"Divididos, seremos um, 
pois nós sempre compartilhamos o mesmo coração.
A luz nos fez cegos para a verdade: 
nós nascemos estrelas.
Apenas olhe para o céu, 
e juntos estaremos iluminando a praia."

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sonhador

Você não lembra de como você vem parar aonde vem parar num sonho. Você só se dá conta depois que acorda, e tenta esticar a memória até onde pode, e ver o quanto consegue lembrar.

Eu estava nesse lugar, olhando para dentro de uma casa grande, meio japonesinha, as paredes não eram bem paredes, eram só estruturas de madeira com várias janelinhas quadradinhas de vidro, como que um xadrez. O gramado no chão possuía uns caminhozinhos de pedra ou talvez concreto nos arredores da casa. Estava de noite, e não havia iluminação senão natural, ou seja estava bem escuro. Eu tentei acender a luz do meu celular mas ela não fazia luz direito, sei lá por quê.

Eu estava explorando este lugar, talvez à procura de algo, mas já não lembro o que era, ou talvez não houvesse nada em particular, talvez estivesse à procura de alguém. E encontrei um camarada. Perguntei se havia mais alguém conhecido, ele disse que não sabia.

A gente foi andando pelo caminhozinho de pedra que ficava em frente à casa e ia ao longo da costa - na verdade foi aí que eu reparei que a grama se estendia pouco na direção da frente da casa e virava areia. A praia era linda, a noite produzia um céu escuro, com uma tonalidade bem diferente. Do lado esquerdo do caminho de pedra que andávamos tinha a praia, e do lado direito, a planície gramada parecia envergar num vale ou algo assim, tinha uma pequena depressão e virava uma colina depois.

Estávamos meio perdidos, mas não tínhamos medo. Esperávamos andar naquela direção por algum tempo, por que sabíamos que o mar estava ao nosso lado, e então, através da costa, chegaríamos eventualmente em um lugar que conhecíamos. Estar perdido não era um problema - era bom, o sentimento que havia era de vontade de explorar o lugar, explorar o caminho e cruzar as belas paisagens.

Quando eu acordei, percebi que era um sonho, mas senti que podia ter sonhado um pouco mais. E me perguntei, e se a realidade fosse um sonho, do qual todos nós estamos meio perdidos, sem saber "aonde vai dar"? Mas não importa, por que o perigo na verdade não existe, e o medo é uma ilusão, o sentimento de explorar é mais intenso?

E se viver é, de fato, explorar o sonho?
E se o objetivo é apenas mais uma parte do caminho, se o final é apenas uma das partes do processo todo, que é o que realmente importa?
E se aonde vamos chegar não importa, de fato, porém importa aonde estamos e o que fazemos exatamente agora?

Se um sonho acontece na minha mente, então meu amigo do sonho, com quem eu conversei, na verdade sou eu? Com a certeza de que sou outro, porém ainda assim, o mesmo sonhador falando consigo mesmo?

E se a realidade fosse um sonho, e todos nós fôssemos o mesmo sonhador, com a certeza de que somos outros, porém, ainda um?

E se, como nos sonhos, pudéssemos criar qualquer coisa que queremos ou imaginamos, somente usando a Vontade?

E se tudo o que falta para você conseguir, de fato, fazer isso, é perceber que tudo é mesmo um sonho?

E se você só não percebe justamente por que é o criador da mesma realidade que percebe?


Jardim dos Sonhos

Nesse natal de 2013, eu ganhei um livro sobre o Zohar, umas roupas, e uns perfumes. Nesse livro fala-se abertamente de um rabino que conversava na linguagem do coração com seus discípulos numa caverna.

Na noite do dia 24 para o dia 25 eu tive um sonho. Eu estava numa casa meio velha, acho que é no Rio de Janeiro, nalgum lugar como Madureira ou o Méier. Eu declaradamente não gosto da cidade do Rio, acho a vibe de qualquer lugar de lá que eu já fui sempre muito ruim, é sempre ou falsa ou ácida, agressiva. Egóica.

Essa casa parecia uma versão fudida da casa de um conhecido meu. Não tenho certeza se era, mas sei que estava tocando "down in a hole" do alice in chains (olha só isso huauhshuas). Eu tento voltar pra casa e me encontro num bairro no Rio que eu não sei qual é. Mas sei que é no Rio por causa da padronização zuada que tem lá, lugar mó estranho feioso. É a padronização da feiúra e do tanto faz arquitetural, uma farofa danada.

Não passa nenhum ônibus que eu conheço. Uma hora passa um táxi bem velho, meio caindo aos pedaços, eu hesito em pegar e acabo não conseguindo. Procuro ponto de ônibus e abordo transeuntes perguntando sobre como voltar pra Niterói. Uma senhora negra me ajuda, ela me dá 10 reais pra eu voltar pra casa (apesar de eu não precisar de isso tudo) e eu pego um bus pra São Gonçalo que supostamente pararia no terminal (e de lá eu pegaria outro pra casa).

Eu entro no ônibus sento, e durmo. E acordo de novo no lugar que eu estava antes.

Eu tentei me controlar e procurar outra saída sozinho. E fui pra outro lado diferente do que eu ia pra chegar no ponto de ônibus, fui andando na direção contrária de onde eu tava indo. E tinha um jardim que eu achava que era de um condomínio, mas nem tinha reparado nele ainda, distraído tentando voltar pra casa.

Eu ando na direção do jardim e tem 2 saidas: ou eu vou pelo túnel (tipo um túnel rebouças, escurão) e saio em outro bairro, ou, sei lá, eu tento ir pelo jardim pra dar em outro lugar. Eu vou pelo jardim.

E plin, eu de repente me dou conta de que "era ali que eu devia estar".

E o jardim é foda demais, de maneiras tais que eu não devo explicar ou tentar descrever, por que qualquer tentativa ficaria muito abaixo de suas qualidades devidas. Foi o sublime schopenhaueriano.

Tem uma música, tambem do alice in chains chamada "heaven beside you". O tesouro (o jardim dos sonhos) estava ali a todo momento e eu nem vi. E na verdade ninguém viu. Todo mundo passou por ele batido, seguindo suas vidas distraídos e desesperados e atrasados para algo "importante".

Depois que eu me liguei e vi, eu acordei.