quarta-feira, 29 de junho de 2011

O dia do cocô voador

Em abril deste ano, quando eu estava bebendo e conversando com amigos meus, comentamos sobre o incidente em Ponta D'areia, em Niterói, quando uma parede de 7 metros de concreto de um dos tanques da estação de tratamento de esgoto no local se rompeu, liberando 5 milhões de litros de esgoto em tratamento no meio da rua.

Quem pega ônibus para o Rio também sofre com o trânsito daqui - apesar de ser uma cidade "pequena", leva-se bastante tempo para sair de ou voltar para ela. Quem mora em Niterói sabe que, desde que o samba é samba, aqui quando chove é hora de botar o Caiaque pra fora. Quem mora aqui também é testemunha de que a cada dia que passa tem um prédio novo sendo construído em algum lugar por aqui.

É natural que aquele que percebe isso venha a se perguntar se esse acontecimento na Ponta D'areia é uma demonstração de que a cidade está ficando com mais gente do que cabe, não acha? Na verdade, não parece ser exatamente o caso, mas ainda assim muitos niteroienses mostram preocupação sobre até onde essa “invasão” de novos apartamentos vai. Será que o esgoto da cidade vai aguentar? As construtoras quando lançam prédios novos atualmente, enquanto os constroem, fazem as obras nas ruas também, em troca de facilidades. Trocam todo o encanamento para não dar nenhum problema no futuro, pois sabem que é uma cidade pequena que teve grande crescimento. E o sujeito começa a perceber que quanto mais gente morando, mais impostos. Impostos e impostos aparecendo, mas em lugar nenhum investidos. Não me culpem se isso for falha da minha percepção e a da de precisamente todo mundo que eu conheço; políticos sempre podem ser transparentes. Mas é claro que isso não deve ser interessante.

Então, conversando, propus um evento que protestasse tirando sarro disso, levando em conta o contexto da recente notícia da explosão. E lembrei-me de uma das idéias mais antigas e engraçadas que existe - a lenda de que se, num momento marcado, todo mundo pressionasse a descarga ao mesmo tempo, voaria esgoto pelos bueiros da cidade. Eu duvido que funcione, mas mais importante do que funcionar ou não é a idéia. É engraçada e “pega”, a princípio.

A idéia poderia servir ainda por cima de manifestação contra a falta de investimentos no saneamento básico do estado como um todo, fato o qual, sabemos, se reflete na lotação de hospitais por conta de muitas doenças que poderiam ser prevenidas. Seria uma manifestação simples, mas não menos válida. Criei o evento e chamei alguns amigos, compartilhei no mural do Facebook, foi engraçado no início, e ficou nisso.

Eu achava até que, se a idéia vingasse, quem sabe poderia virar algo mais sério e uma passeata sem a brincadeira, mas eventualmente dizendo: "Para onde vão os impostos que pagamos? Pro esgoto?".
Mas já no início, conforme foi surgindo gente, eu percebi que era muito melhor assim.

Depois de um tempo haviam 3 mil pessoas confirmadas. Logo depois, havia 8 mil, e logo em seguida cerca de 12mil, e neste momento encontra-se na casa dos 25 mil confirmados. E quando eu vi, estava recebendo mensagens agressivas e completamente infundadas na minha caixa do Facebook (todas devidamente respondidas).

Não achei que pudessem ser tão engraçadas, inclusive. A melhor delas é de gente falando que eu ia ser preso por desordem pública, vandalismo. Por um protesto feito de dentro de seus banheiros de casa? Pelo amor de deus.

Analisando poucos casos, já pude perceber que muita gente se preocupava com o "desperdício" de água que a manifestação poderia ocasionar (apesar d’eu duvidar que um centésimo destas pessoas que reclamavam realmente economizasse tão proativamente quanto defendem a água que tanto falavam). Acontece que não há desperdício se a privada estiver cheia - restando apenas a hipótese de a privada estar vazia, o que significa então apenas uma preocupação com qual o número de pessoas que poderia estar disposta a desperdiçar água. O que é virtualmente igual a qualquer pessoa que protesta naturalmente contra o desperdício de água. Aquelas pessoas que falam para ir rápido no banho, e fechar a torneira quando escova-se os dentes.

(Vocês podem então, considerar, este o dia em que se Escolhe economizar ou não água em um protesto.)

E aí é que eu reparei outra idéia interessante que sempre tive vontade de aplicar, mas nunca havia vislumbrado um meio simples: não haveria diálogo entre estas partes opostas se este não fosse um evento de caráter, digamos, levemente subversivo. O mundo é um pêndulo: desequilibre para um lado, e ele começa a se mover, pra lá e pra cá.

Em A Arte da Guerra, Sun Tzu declara que são as ações indiretas que determinam o futuro de uma guerra. Paralelamente, desde os tempos da KGB, é sabido que os governos corruptos vêm disseminando desinformação e implantando a forma de pensar no subconsciente da população do mundo afora a gosto do que, e de quem, aparenta mais lhes favorecer, por meios indiretos e muito difíceis de discernir para quem não está atento. Paralelamente, faltam com transparência, criam sigilos, etc.

Eu sei que muita gente já luta contra isso. O Lulzsec e o Anonymous por exemplo. Eu só tenho algumas idéias diferentes.
Pois e se fosse possível usar das mesmas armas para fazer o contrário, isto é, desenvenenar a informação?

Bem, existem coisas que não podem ser aprendidas se falando, elas têm que ser vistas, vividas. Eu vejo muita gente que acha o Justin Bieber horrível, mas eles falam muito mais mal dele do que as pessoas que gostam falam bem. Eles não percebem que com isso estão fazendo exatamente o que o produtor dele deve estar querendo - divulgação de graça.

Pergunta a alguém como é tentar ser ouvido hoje, por uma causa decente, do jeito convencional no Brasil. Pergunta aos bombeiros a quantidade de tempo que eles ficaram lá acampados na ALERJ, ou então desde quanto tempo antes disso eles já vinham reclamando de seu salários. Isso falando de apenas um caso.

Eu aposto todas as minhas fichas que, se naquele dia da invasão do quartel todo mundo tivesse sido perdoado, essa conscientização não teria acontecido. Aposto que foram exatamente a declaração do Cabral (e aqui, ressaltemos seu momento de fúria*) e a prisão dos bombeiros que fizeram a causa deles repercutir. Muito mais do que o fator consideração que a população tem por essa nobre profissão. Se não tivesse sido por isso, duvido que tivesse havido alguma coisa a mais.

Para estes casos onde não é tão simples ser ouvido, eu prefiro mostrar a falar. Entretanto, a dificuldade de reunir pessoas dispostas a protestar por aí de maneiras, digamos, heterodoxas, é a contrapartida desta proposta. Esta idéia é simples e pode funcionar, já podemos ver a quantidade de pessoas aderindo cada vez maior. Através desta idéia meio “gaiata”, vou testando outras.

Como já pode ser percebido, eu considero pouco eficiente a forma tradicional de protesto e manifestação, pelo menos as que são feitas no Brasil. Muita gente me chama de comodista, vagabundo, preguiçoso, apenas por propor um protesto desta forma. Mas que grande esforço há em juntar uma passeatazinha que muito dificilmente vai dar em alguma coisa, que não promove diálogo nenhum exceto aquele possível de ser feito com meia dúzia de cartazes e alguém com um megafone? Você junta seus colegas que são “arroz de protesto” e ainda se diverte lá.

Algumas causas circulam há anos passeiam por muitos lugares, e não acontece nada. Cadê o poder de disseminação de idéias de vocês?

E ainda mais. Como disse J. Carlos de Assis em seu estudo sobre a crise da globalização, uma das novidades do século XXI é a obsolescência da guerra e das revoluções armadas como meios de solução de conflitos políticos. A própria preparação da guerra, no conceito de Von Clausewitz, perdeu sentido na era das armas nucleares, que só acrescentam mais meios de destruição em massa à um estoque já existente e capaz de destruir o planeta inteiro várias vezes. Coisa que cada vez mais é considerada insanidade, felizmente - acrescenta poder, como disse Raymond Aron, mas diminui o controle sobre o mesmo. O que, por um imperativo de conservação da própria espécie, implica que o novo paradigma das relações internacionais, assim como o das internas, é o da cooperação. Todos estão mais dispostos a amansar os outros e fazê-los trabalhar para si.

Isso corrobora com a minha opinião, de certo modo, de que hoje é pouco eficiente simplesmente sair reclamando e dando “porrada”. É preciso incomodar o governante corrupto pra ele fazer o trabalho dele direito.

Enquanto não "enfurecermos o Cabral" *, nossa causa não será ouvida. Pode até passar na TV pra todo mundo ver, mas as pessoas vão esquecer.

Tomemos ainda, por exemplo, a pacificação do Complexo do Alemão pelas Polícias e Forças Armadas. Uma parte da população foi contra, alegando, dentre muitas coisas, que o povo estava sendo oprimido pela força e violência dos policiais. Outra parcela foi a favor, alegando dentre outras muitas coisas, que se isto ia acontecer, era passageiro e também um preço a se pagar, mas que se ver livre do tráfico era muito mais valioso.

Pois então, o conflito aconteceu, metade foi contra, metade a favor, aí deu o dia. Acabou rapidinho, tá tudo em paz, passou um final de semana, tava todo mundo já tomando sua cervejinha, e hoje ninguém se lembra de mais nada. Ninguém mais comenta sobre a população do Alemão.

É assim hoje em dia. Não é muito diferente de qualquer outro tipo de conflito: faz-se uma passeata aqui, e acabou. Faz-se outra ali, e acabou. Acontece um conflito aqui entre manifestantes e polícia, passa na TV, e acabou. Isso quando passa na TV. Tudo isso para daí, o governante, da confortável poltrona da sala dele, rir, ligar para o chefe da polícia, e falar "valeu".

Algumas pessoas, ainda que cometam falácias ad hominem, o que os desqualificaria de primeira, comparam “O Dia” aos protestos que têm acontecido na Europa, na tentativa de invalidar a causa, o que é impossível. Um sujeito comentou que na França as pessoas iam reivindicar seus direitos com dignidade, e queria por que queria invalidar a causa. Isso acaba revelando mais um problema do Brasil que influi bastante no grau de politização e argumentação que a população poderia ter, e, portanto, no sucesso que possíveis manifestações poderiam apresentar (sucesso em uma manifestação é acrescentar algo à sociedade, de uma forma ou de outra).

A razão pela qual não se pode comparar o Brasil e a França neste quesito se dá não por razões conjunturais, e sim estruturais. A França teve desde muito cedo, por fatos de sua própria história, grandes escolas de pensamento atuando na disseminação de informações e idéias e sempre possuiu elites intelectuais que as produzissem. No Brasil, a primeira Universidade per se é a UFRJ, antigamente Universidade do Brasil, que consta de menos de cem anos. Possuíamos apenas escolas técnicas de formação profissional, e poucas Faculdades espalhadas, e olhe lá. A nossa primeira Faculdade surgiu só no séc. XVIII. Para comparação, a primeira Universidade na América espanhola já havia surgido no século XVII, no Chile.

Educação não se faz da noite para o dia. Não adianta querer fortalecer causas se não há pessoas aptas a entenderem as idéias que estão a defender, que dirá defendê-las argumentativamente. É preciso primeiro criar uma elite intelectual disseminadora de idéias, formar professores (lá fora se necessário), e fazer a educação e a informação chegar ao povo Com Efeito. Pois conhecimento é exponencialmente adquirido; o raciocínio é comparativo e os padrões se repetem.
Esta idéia é simples e tem muitos propósitos, e cabe um pouco do esforço da parte de quem dá de cara com ela tentar entendê-la.

Minha argumentação tem a finalidade de sustentar que não é inválido dentro de um país com esta realidade defender movimentos "não-sérios", ou, de outra forma, protestar dando “porrada” e reclamando não é o único modo de protestar.
Ou ainda, que não existe um modo mais correto que outro de protestar. E eu, como já disse várias vezes, prefiro uma idéia antinatural como esta a uma idéia natural (pois as naturais são óbvias, e todas já foram tidas).
Um exemplo de evento que se assemelha a este levemente é o SLUTWALK - que tem background muito significativo, apesar de parecer “sacanagem”.

Cada uma ao seu modo, boas idéias estão sendo mostradas aqui dentro do debate, que às vezes acontece. Isso pra mim já é mais do que suficiente; pois a idéia deste evento era a princípio ser uma brincadeira, que surgiu de uma conversa regada a cerveja num feriado há algum tempo. Gostaria que as pessoas que não entenderam o significado dele a não se limitarem simplesmente a pressupor que, quem entra neste tipo de conversa, não faz nada da vida - o que é ilógico e inocente. E pior, valida mais ainda esta causa.

Mas talvez caiba um mea culpa, pois como nós concordamos, no Brasil realmente há muito que se consertar, e é preciso filtrar um pouco tudo o que vemos.

É exatamente por ser uma idéia de “girico” que o “dia do cocô voador” é uma idéia genial.

Não se trata de dar descargas. Trata-se de um formato de manifestação completamente inusitado.

Fez muita gente rir, e esse pessoal se mobilizou por ser muito fácil fazê-lo via facebook.
E de outro lado irritou a muita gente e fez essa gente se mobilizar também, contra o desperdício de água.

E é por isso que o formato funciona.

Eu não pretendia divulgar um texto de esclarecimento a ninguém, pois, como Von Clausewitz dizia, você precisa deixar o inimigo achar que está no controle. Mas estas não são as únicas idéias que nós temos.
Esperem e vocês poderão se surpreender com o que vão ler.

domingo, 12 de junho de 2011

Será?

Será que um homem pode viver com um coração vazio?
Será que um coração pode passar tanto tempo sem uma paixão?
Será que uma paixão pode realmente durar tão pouco?
Será que as antigas mentiras ainda estão vivas?
Será que os bons tempos de antigamente irão morrer?
Será que a minha presença deveria mesmo te dar medo?
Será que alguém pode lutar com o coração vazio?
Será que um coração vazio pode lutar para achar algo que o preencha?
Será que preencher o coração é mesmo a resposta que precisamos?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

estagnação. fracasso. mediocridade.

"Mas só para terminar este ponto: então os estudantes afastados da participação da vida pública; as universidades castradas, transformadas em fábricas de diplomas, quando muito, e quando melhores, transformadas em meras escolas de formação profissional, mais nada. Quer dizer, a universidade perdeu sua função de formadora da elite, forma só profissionais, amus ou bons, mas meros profissionais; não cidadãos e muito menos cidadãos capazes de dirigir o país.
Então, quando se extinguir essa geração - é a teoria que estava outro dia me impressionando e disse que era de tirar o sono... A gente se habitua com a ideia de que o Brasil tem um grande futuro como potência, porque tem, sem jogo de palavras, potencial, grande população, grande área, riquezas naturais, enfim, tem uma série de condições para ser uma das grandes potências do mundo. Para ser, pelo menos, em pouco tempo, um país do nível, vamos dizer, do Canadá, ou do nível para onde está caminhando a Austrália, pelo menos. Mas, de repente, quando a gente vê a crise da formação de elites dirigentes, em todos os setores, e elite no verdadeiro sentido da palavra, não no sentido de que o sujeito tem conta no banco, mas no sentido de um sujeito capaz, que tem espírito de liderança, espírito de iniciativa, capacidade de comando, capacidade de apreender o que lhe ensinam, etc., você começa a temer que só o tamanho do território, o aumento da população e a riqueza potencial não bastem e que o Brasil poderá se transformar numa outra Indía; a Índia também é muito rica, a Índia também é muito povoada."


Depoimento, Carlos Lacerda, 1977.