terça-feira, 12 de julho de 2016

The way back home

Every man thinks he's an island
But he's actually the sea

domingo, 26 de junho de 2016

Fim

É chegada a hora de acabar a brincadeira

terça-feira, 21 de junho de 2016

Passando

Às vezes me pego pensando em como eu era um babaca no passado.

O que incomoda não é bem o fato de eu ter sido um imbecil, por que logicamente não faz sentido; o que já está feito está feito, e é possível que se não o tivesse sido feito, eu não estaria consciente agora.

Eu fiz (e defendi o feitio de) coisas ruins e algumas terríveis no passado. Mas graças ao sr. Buda, houve quem desse o tapa de acordar (o que eu e alguns chamamos de karma), e eu pude ver. E a estes eu sou grato. Houve também quem fizesse comigo coisas bem ruins. Sempre há. Não é em reação que somos o que somos; é em ação. 

O incômodo talvez seja um medo de não ter deixado de sê-lo. De que este babaca ainda viva, lá escondido, em algum lugar, no interior. Esperando a próxima oportunidade para dar um golpe. 

Deve ser parte da angústia de ser consciente; ter certeza demais é cinismo. Nada é certo. Existem coisas que temos certa confiança baseada em repetições e comprovações, mas vale até que se prove o contrário - e às vezes isso acontece. Não é diferente consigo mesmo; ter certeza demais de quem se é é cinismo. 

Tem que haver um policiamento, uma reflexão sobre si, sincera e profunda. Ela não pára; não há consciência sem observação própria.

As manchas de sujeira vão sendo lavadas, substituídas por tintas mais coloridas. Mas sua forma fica marcada. E ela se funde à pintura.

Se tudo o que você conhece é o Brasil, então você não realmente o conhece direito. Até que você saia dele e saiba também o que Não é o Brasil.

Do mesmo modo, um dia talvez eu tivesse sido eu, e apenas; sem mais. E então foi surgindo a consciência de mim mesmo. E então houve uma confusão por um momento, de o que era a mim mesmo. E assim, talvez tenha sido necessário ir na direção contrária, e tentar ser o que eu não sou. Mesmo sabendo, em algum nível, que isso estaria fadado ao fracasso. E então, eu soube que aquilo não era eu, e pude olhar no retrovisor. E dei marcha ré.

É um caminho meio torto esse, sim. Mas agora eu sei.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Black Hole Generation

O dilema de agora não é mais o antigo "o que devo fazer vs. o que desejo fazer", porém "o que desejo mais fazer", dentre as inúmeras possibilidades de um mundo livre.
O dilema agora é o da auto-responsabilidade. De todas as possíveis escolhas, só poderemos fazer algumas; quais delas então bateremos no peito para assumir.

Desejamos demais, talvez.
Talvez sejamos uma geração de buracos negros, mantendo nossa luz presa dentro de nós mesmos, por que a gravidade é grande demais.
Por desejar demais, há mesmo quem pare de desejar. Se torne blasé.

É o preço de uma transição, de um passado escravizatório para um outro um tanto quanto menos.
O que fazer com toda essa liberdade; o que fazer com toda essa falsa possibilidade. Por que não podemos tudo, podemos escolher um pouco de todo o tudo.

E isso é mais do que suficiente, sabemos. Mas ainda desejamos.

Curioso talvez sejam os quasares. São os objetos mais brilhantes do universo, junto com os pulsares. São estrelas sendo engolidas por um buraco negro, e integrando-o. No processo, sua massa é atraída e aceleram a uma velocidade incrível, produzindo intenso brilho.

Os objetos mais sombrios do universo são, ironia, aqueles que produzem os objetos mais brilhantes. Mas eles precisam de compania.

Talvez na compania uns dos outros, poderemos nos fortalecer aonde nosso range de escolhas não pode mais atingir, e então brilhar por algum tempo, e deixar este brilho de legado para as próximas gerações.

Precisamos deixar inspiração para uma nova forma de amar.


sexta-feira, 25 de março de 2016

What's left... and what's right

O que sobrou de nós
O que é certo para nós
Por que sobrou a nós
O que é certo
O que é nós
O que é direito
O que é esquerdo
O que és que herdo
Que és de direito
Que restou
Que não se foi
Que nunca veio a ser

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Meus acordes

A vontade de querer ser mais pode te matar
Apenas para renascer e conhecer
A dor de morrer não por que pereceu
Mas por que acordou

A vida é uma sucessão de sonhos
A cada porta que se abre, se vai
A ilusão de que se conhecia uma sala
Que é parte de uma construção maior

Você não se conhece
Até renascer

A vontade de ser mais pode te fazer querer deixar
Para trás aquele que você amou e sempre amará
Por que descobriu que não não sabia o que era amor
E agora acordou

O amor é um sonho onde se respira liberdade
Pra quem ainda se sufoca com esse teatro
Estar consciente aqui é um tormento
E a estrada é longa, às vezes, demais

Cada porta que se abre, é mais espaço que se expande
Cada rua que se cruza é menos uma a se topar
Eu vivi achando que amava,
Mas só no fim descobri o que era amar

É um presente agridoce
Poder apenas contemplar
Depois de viver a vida inteira
Achando algo a se mudar

Você não se conhece
Até renascer
Você não é quem é
Até que queime
E espalhe seu calor
E viva assim de novo

Queime quem é
Queime quem é
Queime quem é
E acorde

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Não pode ser

Não pode ser tão simples
A verdade por trás de tudo, como ninguém viu?
Não pode ser tão complexa
O tamanho da mentira é desconcertante demais
Não pode ser

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Esperando

Saia daí e pare
de esperar uma resposta que nunca virá
Ela não está mais aqui
E não mais estará
Você partiu
Ela acha que foi o coração,
Mas foi a idéia,
aquilo que nunca houve
E a estrada

A estrada é longa
E você ainda está esperando aí
Alguma resposta surgir do nada?
Não há perguntas
Há o sentimento de incompleto

Você não precisa de respostas
Você precisa é parar de sangrar por dentro
Você precisa é parar de viver distraído
Acorde e veja o tamanho da mentira
E não volte a dormir
Se achar desconcertante demais
Ria da cara dela
Enquanto todos a adoram

E assim você lembra
Que é mais do que suficiente
Pintar as paredes que ainda estão em branco
E mostrar que ninguém aqui é cego

domingo, 16 de agosto de 2015

Impreciso

Aonde quer que eu vá
Tudo o que ouço é minha mente dizendo
"Isto é impreciso"

Se as palavras são imprecisas, insossas, e incapazes por si só
Que dirá você as ajudando nisso

domingo, 9 de agosto de 2015

Teoria do Amor

"Não esqueça das pessoas que você ama; apenas não lembre delas. Não há memória no presente."

Muitas falas se compartilham agora, e de uns anos pra cá parece que todo mundo ficou meio new age, meio espiritual; deve ser a era de aquário. Eu ouço tanta gente falando em ficar no presente, gente falando de relacionamento, de liberdade. Mas o que vejo não é gente no presente, mas gente que parece ou que acha que está no presente, e estive incluso nisso.

O que isso tem a ver com amor? As pessoas realmente sabem do que estão falando quando falam estas frases? Se elas sabem, estão então vivendo com o que sabem ao seu máximo potencial?

Sempre que topamos com uma pessoa com a qual compartilhamos experiências, ligamos nossas memórias e lembranças com essas pessoa e agimos por meio destas para com ela, de algum modo. É claro que quanto mais tempo passamos com essas pessoas mais  engessado pode ser isto, por exemplo nossa família, os pares românticos, os amigos de longa data.

No entanto, no momento em que isto acontece, estamos objetificando estas mesmas pessoas que nós dizemos amar. Será isso amor mesmo?

Nós temos por comportamento padrão tratar as pessoas por meio de uma identidade percebida delas, esta que é uma soma de impressões anteriores desta pessoa conectadas por uma lógica de previsibilidade, controle - enfim, medo do desconhecido e incontrolável - pela nossa mente. Este comportamento mental é o mesmo que põe as pessoas em caixinhas: esta pessoa é assim, esta é assado.

Não só é um mecanismo de previsão, como também  um de organização mental por meio do qual é possível criar expectativas e agir de acordo com estas.  A criação de expectativas é exatamente aquilo que provoca a decepção - a dor de conhecer uma verdade outra diferente da que gostaríamos que fosse, que agora sabemos ser mentira. Ela é também parte de um mecanismo maior: o mecanismo de projeção.

A idéia do nome projeção vem de se projetar no outro, como se fosse possível viver através do outro. Como um projetor de filme mesmo, um que projeta telas mentais em pessoas-anteparos. O conceito é simples, mas leva um tempo para explicar: quando eu digo que você é bonito, você tem a opção de tratar os meus dizeres enquanto verdade ou enquanto dizeres. Se você é de fato bonito, quando eu digo para você que você é bonito, eu apenas estou lhe informando a verdade que você já sabe. Caso contrário, eu apenas estou dizendo uma mentira. De qualquer modo, o que eu digo é completamente irrelevante, a não ser que seja algo que você não sabe. E você não pode não saber algo sobre você que outro saiba - a não ser que você escolha ignorar ou jogar debaixo do tapete, casos nos quais este texto se torna irrelevante - neste caso é preciso de um psicólogo, isto é, um profissional que lhe ajude a fazer a si mesmo perguntas as quais você não seria capaz ou não ousaria fazer, afim de encontrar as respostas que precisa. (Vale lembrar que o psicólogo não sabe mais de você que você; nem poderia. Ele apenas o usa para ajudá-lo em se esclarecer.)

O que 99% das pessoas fazem é tirar o foco do fato (neste caso, o fato de você ser bonito) e colocar o foco no dizer (na fala "você é bonito") - isto é, você deixa de perceber o fato para perceber a aparência do fato, o que se fala do fato. Quando você faz isso, você dá à pessoa que diz que você é bonito o poder de decidir sobre a sua verdade - ou melhor, você deixou de entender a verdade como aquilo que reside nos fatos, para, ao invés disso, no que se fala dos fatos.

E então, quando esta pessoa resolver disser que você é feio, você estará triste, puto, indignado, ou qualquer coisa que seja. Otário.

Mas olhe ao seu redor, olhe as pessoas, veja o que passa na TV, e você perceberá que tudo não passa disso. O que importa para a maioria das pessoas não é o que É - é o que PARECE ser.

O que as pessoas falam pode até ser constatação do seu Eu real, mas no momento em que você se apega aos elogios ou aos xingamentos,  você cria um Ego, um eu falso, essa identidade percebida de que eu falo. Você também não pode negar a coisa - se a pessoa vai lá falar que a música que você acabou de gravar está "liiinda maravilhoooosa melhor do mundo", não adianta você negar isso, ou ficar dizendo para si que não vai escutar nada do que a pessoa diz. Toda negação de uma lógica usa esta lógica para negá-la, o que a reafirma. O máximo que você pode fazer é ser indiferente à aparência, e ser focado na coisa, naquilo que é real.

Então o que essa pessoa diz não deveria lhe alterar em nada, no máximo te ajudar a constatar que você estava certo sobre as escolhas para a música, e sobre o fato de que ela é boa. Mas isso é apenas a constatação, não há um julgamento, não há uma valoração. Não é possível verdadeiramente valorizar nem desvalorizar nada, só você pode escolher criar essa possibilidade mentalmente. O fato vai permanecer exatamente do jeito que ele é e sempre foi.

No momento em que você passa a existir nos olhos da sua namorada, você cessa sua existência, e passa a viver através do eu irreal criado pela impressão que sua namorada tem de você. Se ela diz para você que você é inteligente, você pode reagir de maneira neutra, agradecendo por educação mas não-ligando para aquilo; ou você pode se debulhar em lágrimas pois nunca ouviu um elogio daqueles. E nesse momento você ironicamente se coloca num lugar de não-"inteligente" (ou qualquer qualidade declarada) - pois é como se você viesse de um lugar aonde não era inteligente, e então, devido ao elogio, passou a ser.

Você deixa de ser o que você é de verdade (um ser humano) para ser uma identidade (um conjunto de qualidades e regras declaradas para representação dessas qualidades) no momento em que cai na lógica das projeções. Ao invés de abraçar e aceitar a verdade, você vai procurá-la nos outros, procurar reinventá-la e para isso precisará da aprovação e da validação deles, pois você deu a eles o poder de ditar a sua realidade quando caiu nessa lógica - e em troca, provavelmente eles darão a você esse poder também. Na tentativa de obter mais elogios e validação para sua realidade desejada obter o estatuto de crível, você vai querer agir conforme as expectativas dos outros, e em troca, vai querer que as pessoas ajam conforme as suas expectativas. Estabelece-se assim a lógica de escravidão e exploração mútua que é a base da nossa sociedade vampirizadora.

Você pode ser escravo tanto das expectativas dos outros sobre você quanto das suas expectativas sobre os outros. E essas expectativas são produto direto da existência de uma identidade falsa associada a si ou aos outros. E essa identidade falsa só é criada pois há o deslocamento da noção de verdade da coisa para a aparência da coisa.

No namoro tradicional, as pessoas tiram o valor um do outro. Se é amado, então tem valor, se é traído, então quer dizer que não tem valor, se não é amado, então não tem valor, se é elogiado, então tem valor, se é maltratado, então não tem valor e fica nessa punhetação infinita. Ai se a pessoa trai, isso simboliza que você não tem valor algum pra ela, logo você não tem nenhum valor inato. Aí nego corta o pulso e os caralho. Aí se ela te dá presente, vai atrás de você, isso significa que você tem valor e aí você fica feliz, em paz, alegre, pleno. Mas isso é tudo falso.

O verdadeiro eu está abandonado enquanto você tá concentrado na cabeça da outra pessoa. Na outra pessoa, quem você é está paralisado - não passa de uma identidade criada mentalmente. Você o verdadeiro valor inato real está em você. Portanto para eliminar o sofrimento é preciso eliminar a dependência do externo.

Esses dias eu tava vendo com um amigo um show na TV americana que a pessoa recebia dinheiro e tinha que falar a verdade. Aqueles programas polêmicos aonde a pessoa fala as verdades sórdidas da sua vida. As perguntas que vinham era só pedrada. Mas todo mundo falava a verdade.

Mas o que intriga é que a verdade é vergonhosa pra essas pessoas. Isso não faz sentido. É como se o "bom" fosse a mentira. O que as pessoas são de verdade, pensam de verdade, sentem, decidiram, escolheram, é... vergonhoso. E "destrói" as coisas, destrói a família, o casamento.

Mas a verdade é apenas o que é. É luz pura, o resto é criação da mente, é ilusão, é falso, trevas, neblina, turvo envolta daquilo que é claro e inegável. Ora, se a verdade corrói algo o problema é do algo, não da verdade. Tudo que não é a verdade, é apenas projeção, dos outros, da sociedade, em cima da pessoa - do que todo mundo quer que ela seja.

Outra coisa que eu reparei também é que um dos principais caminhos pelos quais se ganha audiência e atenção na TV brasileira é falando merda, mais especificamente falando mal de algo bom ou falando bem de algo ruim. A idéia dessa dialética da controvérsia, da contradição, é simples: isso só funciona por que as pessoas estão ligadas não ao fato da coisa ser boa, mas ao fato de dizerem que a coisa é boa ou ruim. É uma projeção em massa. E isso é tão percebido (talvez só não com essas palavras) que as pessoas na mídia usam propositalmente esse hack com frequência. Para juntar atenção você fala mal de algo, inverte algo, aí surge um monte de gente pra te contradizer, ao invés de nego cagar pra você já que você simplesmente está errado, ou seja, azar o seu.

Bom dito isso, só resta dizer pelo menos uma solução para esse problema, depois de tanto tempo falando dele.

A solução é extremamente simples, porém difícil e complexa (não complicada). Amar de verdade é uma coisa difícil. A maior parte de nós está acostumado a amar apenas quando lhe é conveniente; que é não muito além de um egoísmo. Amar é, para a maioria das pessoas que tenta de verdade, uma tarefa árdua de autoconhecimento e limpeza espiritual, uma limpeza dos julgamentos e projeções. Mas a simplicidade está no que se segue.

Para amar as pessoas de verdade, é preciso cagar para as pessoas. Não se importar.
Completamente ao contrário do que se ensina no mundo.

Essa, por incrível que pareça, é a única maneira de se desvencilhar da criação de uma identidade, que é maya. É o único jeito de se desfazer do resíduo das impressoes passadas deixadas por aquela pessoa na sua mente inquieta. É no silêncio venenoso, que o ego, ao morrer, permite que viva a pessoa de verdade.

Se as mães e pais não se importassem tanto com o que seus filhos fazem, elas não os proibiriam de viver a vida, e ao invés de simultaneamente superprotegê-los e aprisioná-los impedindo de viver, deixariam eles aprenderem com a vida de verdade, conforme deveria ser.

Se os conservadores vulgares não se importassem tanto com o que os homossexuais fazem entre quatro paredes ou como formaram pares e famílias com pessoas que não lhes dizem respeito ou mais ainda como o estado (que é a máxima ilusão, a de que o homem pode ser governado) se projeta em cima da questão, poderiam deixá-los viverem em paz de verdade, poderiam viver em paz consigo, e conservar para si os valores a que tanto são apegados.

Se os casais de namorados não se importassem tanto com o que fazem, com quem falam e se relacionam seus pares, no que eles estão pensando, se a relação vai perdurar, até quando, se existe chance de alguém outro estar com más intenções para consigo, se existe chance de aquele cara com quem ela fala na verdade ser um ricardão, ou aquela safada com quem ele está falando na verdade ser uma (nome feminino em superlativo sintético),e faça-se aqui um sem-número de outras conjecturas contrafactuais que anos de brainstorm e prints de facebook não dariam conta...

Estes casais poderiam viver o presente e simplesmente fazerem o que querem de verdade, ao invés de se dobrarem para agradar ao outro esperando ser agradado em troca. Agradariam a si mesmos com a compania de outra pessoa que também não espera nada em troca. Quando estão juntos são a si próprios; quando estão separados, nada muda. Quando é hora de viajar para outro país, não há separação; não há o fim de nada, em primeiro lugar nunca houve início. Não há o que perder; também não há o que se ter.

Só importaria o presente. Não importaria o futuro, pois não haveria o que se temer. Não haveria o que se perder, e mesmo que houvesse, estaria fora do seu controle.

Não importaria o passado, pois os conhecimentos que o definem estão no sempre-presente; sendo assim, qualquer relação com o passado é apego, e portanto maya(sofrimento). O passado são apenas as memórias que se tem de fatos que ocorreram; suas impressões acerca delas são julgamentos (logo projeções), portanto maya; e se é assim, não há o que se ressignificar - apenas constatar, acerca do passado, enquanto um conjunto de fatos do qual se tem memória. Portanto não há o que se importar.

O passado, do jeito que experienciamos no presente, são apenas memórias; por mais que você queira, é impossível esquecer os fatos que conheceu. O máximo que vai acontecer é você reprimir, jogar debaixo do tapete, mas ainda vai estar lá em algum lugar, nem que seja no subconsciente. Não são os fatos que te proporcionam o sofrimento; é a ilusão que você criou sobre os fatos por meio do seu julgamento sobre estes tais fatos.

Portanto pode passar a borracha à vontade. Tire tudo que se pode tirar. Tudo que é maya vai embora. No final, quando se retirou tudo, sobra aquilo que não pode ser apagado, aquilo que é eterno.

Elimine o julgamento; substitua-o pelo amor de verdade - pela ausência de julgamento. Pois você não precisa de nenhuma razão para amar. O único amor de verdade é o amor incondicional. O amor é o presente que esperando que você desfaça o embrulho criado pela sua mente.

Seja o sol, não por que há trevas e por que isto é necessario, não por que esperam de você que brilhe; mas por que isto é o que você é de verdade. Você é o amor; dele você foi feito, e a ele voltará.

Tudo o que tem de acontecer acontece; só resta ao humano contemplar a existência, e ser grato. Portanto seja e deixe ser.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

The Mage of the Void

Once there was the I
only me and myself were here
and from being only
suddenly, i became... present

There was fire, wind,
earth, water, and light
But there was also darkness
And following the day, there was the night

And then i realized nothing really was
as above so below, as within so without
There was only void
That involved it all throughout

And in the void, all there was, was there
And the nothing contained the everything
In the void i let myself be too
And from it's power, i rose again

Once more there was i
Aware of all there is and isn't yet
I became aware of time
And then, that time is but a fake

Then i came to know of truth,
And all there is besides
and all there is, is only one
But divided, it's multiplied

Too many truths that could appear
Too many differences and parts
A whole completion to this science
And also, a complete lack of start

In the void, ever is dark
But it's also very clear
Light itself will burn and fade
Shall the darkness not evade

It's how the word begins the world
It's why the living have a shape
Everything comes out of nowhere
For in the void I simply am

A legacy i leave
To those who want to know
Of the void all voices shall return
and in silence shall remain

My legacy i leave to
those of you who know you're me
In the void at once all happens
And between to chose you're free



sábado, 9 de maio de 2015

Falsa Arte

Falam de amor
Se dizem do bem
Mas adoram o suicídio

Apenas arbitrando uma ineficiência do sistema
Pescam inúmeras e inúmeros
Corações quebrados por mentes doentias
Doentes de controle
Controladas pelo resto, sem saber

Tudo não passa de uma pescaria
E de qual é o jantar de hoje
Nenhuma verdade foi dita
Apenas a aparência de verdade
Foi usada como isca

E o suicídio foi aplaudido
E cantado em vários versos
E gritado e repetido em refrões

E vocês achando que achavam mesmo que o amor existia
Mas nunca o procuraram
Só riam
E choravam da própria desgraça
Uma carapaça contra todos
Que te lembram quem você é

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Dharma

A parte mais importante de aprender é o descanso.
É espairecendo, clareando, saindo do eu, deixando ir o peso do trabalho duro e preciso, rigoroso, que você se torna mais do que aquilo. Você supera aquilo que fez.
É a parte aonde você percebe que andou mais uma milha no caminho da morte, e percebe que tudo se tratava de mais uma etapa que te prepara apenas para vencê-la.
Só então você não se apega aos lugares, e segue o caminho com clareza.

Nós somos todos uma árvore gigante, a humanidade. E cada parte de nós tem que crescer como um galho que desabrocha caminhos novos pela planta.
Assim caso você não tenha achado o seu, volte ao seu natural instinto, ao seu eu verdadeiro, que está no coração. Não há meio de não ser o galho - só há folhas se há galhos, e sem folhas não há fôlego.

Pode ser quem seja você, ir aos mais altos montes e sentar para meditar ao lado dos mais santos e tornar-se um e santo como eles é tudo se for seu caminho e se for um atalho para voltar ao caminho, e nada se não o for.

Cada folha, pétala e fruto da árvore é essencial para cada um de nós e todos, pois somos todos um.


domingo, 12 de abril de 2015

Blind by choice

We can easily forgive a child who is afraid of the dark;

the real tragedy is when men are afraid of the light.

sábado, 4 de abril de 2015

De um dia para o outro

De um dia para o outro você pode acordar
E perceber que talvez não quisesse ter
Como a merda que fede por baixo do pano
recoberta e dessabida A verdade não pode ser

É duro saber de sua condição
Éramos deuses sobre os oceanos e flores
Éramos apenas os nossos amores, éramos um
Hoje somos a escravidão

Uma vez fomos senhores de nós
Sem precisar negociar a alma
Parte a parte cada dia por comida
Mas não estávamos a sós

Veio o véu da noite
Sobre a bela terra que nos acolhe
E trouxe com si aqueles que plantaram
e desde sempre colhem dA ilusão

Éramos deus, como os oceanos e flores
Éramos apenas, o amor era luz no caminho
Somos apenas memória fraca de nossa verdade
Da mãe natureza, restou apenas a grama

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Qualquer semelhança é mera coincidência

- Why do you always focus on the similarities rather than differences?
- Because every single fucking thing is fucking different anyway, you dumb.

As frases não tem a mesma carga no português. Você vê, as diferenças entre a língua inglesa e sua forma particular de praguejar (como colocando fuck em qualquer momento da fucking frase) não são para serem reconhecidas a esmo, são para serem apreciadas.
As diferenças existem aos montes - falando de línguas não parece tanto por existir um sistema padronizado de linguagem aceito que une os cidadãos, porém a língua não é apenas isso. Todo país tem inúmeros regionalismos. Em toda região existem subdivisões e subculturas que fazem parte de um todo indivisível. Tudo remonta ao indivíduo e sua característica de ser único. Então não há diferença para ser reconhecida mais uma do que a outra naquilo que não é universal - como por exemplo a arte.
A diferença é para ser apreciada. A semelhança é que é para ser reconhecida. É dela que se deve falar, pois é muito mais rara.
Se a semelhança for mera coincidência, também é, mera coincidência, a razão de existirmos.

Mas e se não for, afinal, tudo coincidência?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Felizes para Sempre?

Antes de tudo, eu queria entender quando foi que começamos a subverter nossos valores. Não por simples hipocrisia, mas por completo mesmo.

As divisas entre nós são cada vez mais evidentes. Somos consumidos por responsabilidades, por distanciamentos sociais, por nossas distrações. Tinder, Instagram, noitada, tudo isso só fomenta a abertura do grande vale de nada que se cria entre nós. Com um esforço tão grande pra mostrar ao mundo o que a nossa personalidade representa, e com a exagerada importância que vemos a opinião do mundo sobre a difusão de nossas personas, as relações se reduziram ao pó. Superficiais, momentâneas, egocêntricas.

Quando foi que tudo que eu considerava importante, de repente, tornou-se obsoleto? A cumplicidade, o companheirismo, aquela ligação forte que une duas pessoas e as torna ainda mais fortes juntas, e a vontade de estarem juntas, de ser um time. Não falo nem de romantismo, falo de conexão. De construir algo real, um legado.

Parece um sonho que morreu junto com o Sega Saturn nos anos 90, ou um devaneio que se tornou inviável assim que eu pude enxergar o mundo com olhos menos ingênuos, mais castigados. Pra que ter um grande amor quando você pode ter uma trepada através de um simples “like”? Pra que se entregar, quando uma simples diversão momentânea vai te fazer sorrir e vai manter o teu ego intacto depois disso? Pra que se arriscar, se o risco não é assim tão necessário?

Hoje somos pessoas insensíveis. Trocamos o respeito pela satisfação pessoal, sem nos importar com os danos que essa troca pode vir a causar ao próximo. O que importa é aquilo ali, o momento. Uns acreditam que somos ruins. Eu prefiro acreditar que cansamos de apanhar e tocamos o foda-se pra vida. Somos fracos e egoístas. Desistimos do sonho. Trocamos por aquele grito bonito de desespero que a gente dá sorrindo, mas depois chora sobre a assimétrica maquete de poliestireno que é a vida.

Em algum ponto da cronologia evolutiva humana, nos tornamos ciborgues movidos a hedonismo (e esqueceram de me avisar).

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Ovo

Você estava a caminho de casa quando morreu.

Foi em um acidente de carro. Nada muito chamativo, mas infelizmente fatal. Você deixou sua esposa e duas crianças. Foi uma morte sem dor. Os para-médicos tentaram de tudo para te salvar, mas em vão. Seu corpo foi completamente destruído, você já esteve melhor, pode acreditar.
E foi aí que você me conheceu.

"O que-... o que aconteceu?" Você perguntou. "Onde estou?"
"Você morreu," Eu disse, com naturalidade. Não fazia sentido conter as palavras.
"Havia um caminhão.. e ele derrapou.."
"Isso aí," Eu disse.
"Eu.. Eu morri?"
"É. Mas não se sinta mal. Todo mundo morre," Eu disse.
Você olhou em volta. Não havia nada. Só eu e você. "Que lugar é esse?" Você perguntou. "Isso é o paraíso?"
"Mais ou menos," Eu disse.
"Você é Deus?" Você perguntou.
"Isso ai," Respondi. "Eu sou Deus."
"Meus filhos... minha mulher," você disse.
"O que tem eles?"
"Eles ficarão bem?"
"É isso que eu gosto de ver," Eu disse. "Você acabou de morrer e sua maior preocupação é a sua família. Isso é mesmo uma coisa boa."

Você olhou pra mim com um certo fascínio. Pra você, eu não parecia com Deus. Eu aparentava ser um homem qualquer. Ou uma mulher. Uma figura autoritária meio vaga, talvez. Mais como um professor de português do que o Todo Poderoso.

"Não se preocupe," Eu disse. "Eles ficarão bem. Seus filhos lembrarão de você como um pai perfeito em todos os sentidos. Eles não tiveram tempo de sentir algo ruim por você. Sua mulher vai chorar, mas vai ficar secretamente aliviada. Pra ser sincero, seu casamento estava desmoronando. Se serve como consolo, ela vai se sentir muito culpada por se sentir aliviada."

"Ah.."Você disse. "Então o que acontece agora? Eu vou para o Céu, pro Inferno ou alguma coisa do tipo?"
"Nenhum dos dois" Eu disse. "Você vai reincarnar."
"Ah," você disse. "Então os Hindus estavam certos,"
"Todas as religiões estão certas de alguma forma," Eu disse. "Venha comigo."
Você me seguiu enquanto caminhavamos pelo vazio. "Aonde estamos indo?"
"A lugar nenhum específico," Eu disse. "Só gosto de andar enquanto conversamos."
"Então que sentido isso faz?" Você perguntou. "Quando renascer, eu vou esquecer tudo, não é?" Um bebê. Então todas as minhas experiências e tudo que fiz nessa vida não significaram nada."
"Não é por aí!" Eu disse. "Você tem dentro de você todo o conhecimento e experiências de todas as suas vidas passadas. Você só não lembra dessas coisas agora."

Eu parei de andar e coloquei as mãos em seus ombros. "Sua alma é mais magnífica, linda e gigantesca do que você possa imaginar. Sua mente humana pode apenas entender uma pequena fração do que você é. É como colocar o seu dedo em um copo de vidro e ver se está quente ou frio. Você coloca uma pequena parte de você em jogo, e quando tira, você percebe que aprendeu tudo que podia por lá.
Você foi um humano nos últimos 48 anos, então ainda não deu tempo de você perceber o resto da sua imensa consciência. Se nós ficarmos aqui por muito tempo, você começará a lembrar de tudo. Mas não faz sentido fazer isso entre cada vida."

"Quantas vezes eu já reencarnei, então?"
"Ah, muitas. Muitas e muitas. E em muitas vidas diferentes." Eu disse. "Dessa vez, você será uma camponesa chinesa no ano 540 D.C."
"Es-espera aí, como?" Você gaguejou. "Você está me mandando de volta no tempo?"
"Bem, tecnicamente. Tempo, da forma como você conhece, só existe no seu universo. As coisas funcionam de outro jeito de onde eu venho."
"De onde você vem?" Você disse.
"Ah claro, " Eu expliquei "Eu venho de algum lugar. Um lugar diferente. tem outros como eu. Eu sei que você quer saber como é lá, mas honestamente, você não iria entender."
"Ah," Você disse, um pouco desanimado. "Mas espera. Se eu reencarno em diferentes lugares no tempo, eu poderia ter interagido comigo mesmo alguma vez."
"Claro. Acontece o tempo todo. E já que as duas pessoas tem apenas consciência da sua própria vivência, você nunca sabe que está acontecendo."

"Então, qual é o sentido?"
"Ta falando sério?" Perguntei. "Sério? Você está me perguntando o sentido da vida? Você não acha isso meio clichê?"
"Bem, é uma pergunta plausível," Você persistiu.
"Eu te olhei nos olhos. "O sentido da vida, motivo pelo qual eu criei todo o seu universo, é para que você amadureça."
"Você ta falando da humanidade? Você quer que nós amadureçamos?"
"Não, somente você. Eu fiz todo esse universo para você. Para que em cada nova vida você cresça, amadureça e se torne um intelecto maior."
"Só eu? E as outras pessoas?"
"Não há mais ninguém," Eu disse. "Nesse universo, só existe você e eu."
Você me olhou com um olhar vazio. "Mas e todas as pessoas da Terra..."
"Todos são você. Diferentes encarnações de você."
"Que? Eu sou todo mundo?"
"Agora você está entendendo, "Eu disse, te dando uma tapinha nas costas.
"Eu sou todo ser humano que já viveu?"
"Ou quem irá nascer, sim."
"Eu sou Abraham Lincoln?"
"E você é John Wilkes Booth, também, " Completei.
"Eu sou Hitler?" Você disse, horrorizado.
"E também é os milhões que ele matou."
"Eu sou Jesus?"
"E também é todos que o seguiram."
Você ficou em silêncio.

"Toda vez que você enganou alguém, " Eu disse, "você estava enganando a si mesmo. Cada ato de bondade que você teve, foi feito para consigo mesmo. Cada momento feliz e triste que você teve com qualquer pessoa foi, e será, aproveitado com você."
Você ficou pensando por um longo tempo.
"Por quê?" Você me perguntou. "Por que fazer tudo isso?"
"Porque algum dia, você será como eu. Porque é isso que você é. Você é um dos meus. Você é meu filho."
"Nossa," você disse, incrédulo. "Quer dizer que sou um Deus?"
"Não, ainda não. Vocé um feto. Você ainda está crescendo. Quando tiver vivido todas as vidas humanas em todas as eras, você terá crescido o suficiente para nascer."
"Então todo o universo," você disse, "é somente..."
"Um ovo." Respondi. "Agora é hora de você ir para sua próxima vida."
E eu enviei você de volta.


The Egg
Written by Andy Weir
Translated by Carlos Buosi

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Capítulo 2 - Para onde todas as coisas vão

Todas as coisas representam ética, e são alguém - ao passo que se tornam política, e então, tornam-se disputa; deixando, então, de ser qualquer coisa. Mas eventualmente voltam a ser.

Eventualmente, neste mundo, os seres se preocupam com o que são, e se encontram no próprio turbilhão de questões respectivo ao seu modo de ser, correto/errado, vantajoso/desvantajoso. E praticam o que são - Mas não o fazem sozinhos. Assim, ética se torna política.

Ora, o problema, caro Ent, como você pode ver, é que, assim que os seres acham que são apenas aquilo que os outros designam, é que a direção desta corrente se inverte. A política deixa de ser função da ética, e a ética passa a ser função da política, e não do próprio ser ao qual deveria servir.

Os seres tendem então a se perder em suas disputas, pois para eles, algumas vezes mais do que outras, o que os outros pensam sobre alguém ou sobre si tem mais importância que o próprio pensamento. Um país se divide durante uma eleição tal qual se divide durante um jogo entre dois grandes clubes rivais, com duração um pouco maior (algumas semanas) apenas.

Você vê, as pessoas acham que o que estão fazendo é tentando descobrir qual o candidato certo; qual o candidato menos pior; qual o mais ou menos desvantajoso; quais posicionamentos são mais ou menos adequados - como se isso fosse uma busca própria pela verdade verdadeira, ou por uma escolha fidedigna ao que acham que são ou como as coisas devem ser, por um instinto de validação de uma existência baseada no que os outros acham de si.

E quando muito o fazem; na maioria das vezes, arbitrariamente escolhem uma bandeira e a defendem com unhas, dentes, piadas infames e ataques sórdidos compromissados em ocultar a verdade propositalmente - o que é bem diferente de apenas ser descompromissados com a verdade. E ambos os lados fazem isso, cada um consultando seu próprio turbilhão de questões véticas e pescando o que conseguem dali para embutir no bojo de todas as questões. Tem que apelar.

Ironicamente, você vai ter a oportunidade de reparar (se, é claro, você não escolher nenhuma bandeira), que o que se faz com esse modo de ser submetido ao outro é que os bandeirantes de A nada conseguem fazer senão reforçar a ambos B e A que já estão certos sobre suas escolhas - ou seja, nem sequer convencem a alguém. No fim, as pessoas acabam escolhendo lados por coação/coerção e  persuasão, e quase nunca por convencimento, do mesmo modo que futebol.

Cara nasce em berço flamenguista, só há alguns cenários possíveis - se torna flamenguista por coerção ou persuasão da família, talvez mude para botafogo por causa da galera da escola (persuasão), quem sabe para o Vasco por causa daquele tio sacana que talvez seja o único que te dá atenção, ou seja, também por rejeição à tentativa de coerção familiar. Ninguém se torna sofredor por motivos racionais, se futebol fosse isso todo mundo torcia pro Barcelona e foda-se o futebol brasileiro.

Do mesmo jeito, na política não tem muito de racional. O que existe é um teatro onde as pessoas fingem se convencer de coisas sobre economia, educação, saúde e direitos como forma de agenciamento, por que todo mundo tá afim mesmo é de sair no lucro no jogo de quem sabe mais o que é melhor pro futuro do país, e desde muito antes já escolheram seus times para torcer.

Em algum momento desses - principalmente se você, ao contrário disso, escolher uma bandeira - você pode se pegar em dúvida a respeito de como tudo isso veio parar aonde está. Outro, caso resista à bandeiragem, pode se sentir impelido a adotá-la. É como se todos os amiguinhos estivessem brincando de pique, e você não. Mas você pára e se pergunta "porra, que que eu ia fazer mesmo?" - como que acordando de um devaneio sobre coisa qualquer que o distraiu na internet enquanto trabalhava; e fica estarrecido quando dá de cara com uma página de pornografia bizarra.

E no fim das eleições, toda essa emoção passa; as pessoas deixam de ser inimigas por razões irracionais, voltam a ser amigas - quem sabe isso também não seja teatro. A ética, quem sabe, passe a não importar mais muito.

Todas as coisas vão parar no gol.

domingo, 21 de setembro de 2014

Feliz Aniversário

Meu corpo de dor voltou. Desde o dia 15 eu me sinto estranho, mas tem piorado. Aquela sensação de corpo de dor antiga talvez tenha sido reativada por uma programação que eu tenho de desfazer, que é a de que meu aniversário é uma data triste.

Um aniversário deveria ser, teoricamente, a data aonde se comemora o nascimento - e portanto o fato de alguém viver (ou ter vivido) a partir deste. Na verdade, todo dia deveria ser seu aniversário.

Eu me sinto como se meus aniversários anteriores tivessem sido a exultação dos dizeres acumulados durante o ano que o precedeu de que eu era, em essência, algo inferior a um escravo - um boneco, que um tirano qualquer que se denominasse pai ou mãe ou responsável, afim de reclamar autoridade sobre mim, poderia fazer a merda que quisesse ou me obrigar a fazê-la. Já que este paga minhas contas.

Nesta ocasião, as pessoas me presenteavam de coisas que julgam que eu preciso ou quero, sem nunca terem me perguntado nada a respeito - pois é claro, como poderiam; não me conhecem, e afinal criança não tem querer. Neste estranho ritual, celebrava-se a minha ausência de personalidade e vontade chamando pessoas que eu não gosto para comemorar o meu nascimento me dando coisas que eu não quero e conselhos inúteis ou nocivos. Só posso concluir que o meu nascimento teve, então, alguma utilidade sádica na mente deles.

Fico velho e resolvo não mais compactuar com esse tipo de prática. Me chamam de ingrato.

O que dói mais não é a contradição nem o cinismo; é que no fundo, apesar de toda mágoa, eu queria que tivesse sido diferente.

domingo, 24 de agosto de 2014

Capítulo I - Dos Aldarianos

"Aldaris estava, aparentemente, em guerra. 
Eu percebi a guerra, e no princípio, não me dei conta de que poderia desejar a paz.
E então eu me dei conta, e então eu de fato desejei a paz. 
E eu disse a aldaris que queria a paz, e lhe acalmei com felicidade e amor.
E do amor, percebi que eu e aldaris éramos um, e eu também fui aldaris. 
E sendo aldaris, acalmei meu coração e também desejei a paz. 
E estive, então, em paz.
E a paz foi.
E, no silêncio de sua eterna compania, o fato de ser bastou."

Ditado do Ancião da Colina


            Havia, minha neta, certa época, um povo vivendo a noroeste da Terra Distinta. Tal povo possuía uma peculiaridade bastante inusitada: todos os habitantes eram o mesmo habitante.

            Era difícil aos homens comuns daquela época compreender que os habitantes de Aldaris se entendiam uns aos outros como a mesma pessoa; eles tentaram explicar, certa vez, reza a lenda:

Imagine, que, num sonho desses, com algumas pessoas você conversa. Se este sonho acontece na sua mente, dentro da sua cabeça, ora, de modo simples, então aquelas pessoas são, na verdade, você. Com a certeza de que são outro, mas ainda você. Conosco é assim: somos o mesmo sonhador, que é tudo o que é e todos que são; e você seria um de nós também, se percebesse.

            Nesse livro também conta-se que era um povo extremamente desenvolvido, sábio e avançado; o que um sabia, todos sabiam, já que todos eram o mesmo. Não havia segredos, nem mentiras que os protegessem; assim, amar não implicava em sofrer. Dizer a verdade, curiosiamente, não era por vezes sequer educado - era, o ato de pôr nas diminutas dimensões da palavra estática aquilo que já era profundo saber da experiência dinâmica, algo grosseiro; como tomar o cristal que transcende a condição de rocha e fazê-lo um conjunto de planos e arestas translúcidos.

E isso não vinha a ser o mais intrigante aos olhos dos outros. Os aldarianos viviam muitos séculos, por vezes chegando aos 2000 anos; nasciam, raro, mas com condições de colheita favoráveis, nasciam, permitia-se filhos. E os jovens eram indivíduos, que, após longos anos, eventualmente abdicavam de sua identidade, depois de tê-la formado e tê-la experienciado das trevas à luz por completo; e assim ingressavam na Unidade.

            Na verdade o que o homem comum não conseguia entender era como pode o aldariano ser nascido indivíduo. As crianças do homem comum, em contraste, não eram entendidas como indivíduos, porém como objetos animados com a potência de indivíduo; o que exemplifica em parte sua educação com princípios de militarização.

            Khabral, o grande dragão-lich, com toda sua força e raiva, não era capaz de penetrar os escudos de força que circundavam o Vale de Ûr, livre-capital de Aldaris. Era também curioso que os aldarianos dessem o mesmo nome para sua terra, seu deus e seu povo. Não era, no entanto, surpresa que não houvesse governos por lá, apesar haver distinção entre os trabalhos realizados pelos mais velhos por questões meramente corporais; mas todos sabiam fazer de tudo, e o que precisavam fazer e quando, e o faziam sem precisar de ordens. Khabral tentou fazer de tudo - desenvolveu e jogou pragas e envenenou os rios do noroeste da Terra Distinta. Aldaris assimilou as pragas ao seu ecossistema, reajustando o equilíbrio de plantas e animais para acomodar as pragas; não foi difícil criar também uma usina de despoluição, que aliás, produziam, com adequado tratamento, ótimo adubo. Qualquer que fosse a maneira com que se tentasse produzir uma forma de desequilíbrio, a Unidade se reconfigurava afim de acomodar as novas variáveis, e a harmonia era rapidamente restaurada de maneira natural.

            Por eras e aeons avante o povo aldariano passou sem grandes problemas sua estadia na Terra Distinta, por maiores que fossem as violações para além de suas terras, visto que para qualquer outra nação ou raça seria impossível produzi-los qualquer mal.

Vô, o que é um Aeon?

            É uma forma de dizer Era, mas aqui quer dizer menos com relação ao tempo e mais com relação à sensação que os homens têm de seu tempo.

            Ah, entendi.

            Há que se comentar que em Aldaris nunca se oferecia ajuda. Costumava-se dizer que era por que aldarianos eram egoístas e só ajudavam a si próprios, a quem eles compreendiam exatamente como ajudar; o silêncio escondia uma profunda humildade. Em Aldaris todos tinham a plena certeza de que o único jeito de ajudar alguém é dizendo aquilo que ela precisava ouvir; e só era possível saber isso a partir da própria pessoa. Portanto, só se ajudava a quem pedisse ajuda. No entendimento deles, era uma grande arrogância achar-se na prerrogativa de capaz de ajudar a alguém - na verdade, eles acreditavam que ninguém pode ajudar a ninguém de fato, porém apenas compartilhar o seu mais autêntico e verdadeiro ser, e assim, permitir que o outro ajude a si mesmo.

Além do mais, eles sabiam que havia um grande risco em oferecer ajuda a outras pessoas: o de que elas projetassem, na pessoa que oferece, a própria responsabilidade pelo seu desenvolvimento, deixando assim de viver o processo e falhando inevitavelmente. E por fim, haviam ainda alguns indivíduos cuja identidade não estava autocentrada e alegavam estar à procura de ajuda, quando na verdade procuravam atenção e aceitação - e, analogamente, haviam pessoas que ofereciam ajuda aparentemente sem esperar nada em troca (tal como deveria ser), porém esperavam aceitação e aprovação por suas ações. Em Aldaris, isto não é ajuda, porém é um grande empecilho para a vivência plena; a falsa ajuda não apenas não ajuda, ela atrapalha.

            Portanto, exceto em casos muito particulares e quanto a alguns indivíduos bastante específicos, Aldaris jamais interferiu fora de seus domínios. E por isso - na verdade, muito mais por medo do que por isso -, também não se ofereceu ajuda ao povo Aldariano quando ocorreu a Partida; e os aldarianos também não pediriam ajuda, porém tentariam lidar com aquilo como sempre fizeram.

            Hum. Você vai gostar dessa. Sempre intrigou e divertiu aos aldarianos a quantidade de peripécias que os humanos comuns criavam para fazer as coisas parecerem diferentes – para melhor ou para pior do que realmente são. Em Aldaris não se achava necessário o espaço para uma escola, algo que era imprescindível para os homens; lá entendia-se que era absurdo que a experiência de viver precisasse de algo que não a própria experiência de viver para que fosse devidamente assimilada.

Já os homens separavam-se em  lugares, em ante-salas da vida, com o intuito de educar suas crianças, como se elas não fossem capazes de aprenderem sozinhas o que quisessem; e nisso, as obrigavam a aprender o que eles achavam importante, independente do que elas achavam. Os adultos, com seu orgulho, também não aceitariam que rissem das suas preciosas aulas. Até se fazia rir em sala, mas meramente com o intuito de passar por debaixo da porta um outro conceito ou informação goela abaixo.

Ninguém gostava da escola, mas todo mundo a achava imprescindível. Todo mundo achava que a escola tinha inúmeros problemas, mas ninguém assumia a responsabilidade por eles. Então ela sempre sobrava nas costas de quem tinha menos condição de ser escutado, os pobres, as crianças, os pais das crianças, até mesmo os professores. Para os aldarianos isto não passava de uma bagunça sem sentido, mas eles entendiam que fazia parte do destino dos humanos entender e superar suas diferenças. Mesmo com um intervalo de tempo para viver tão curto, isto seria possível, contanto que as gerações fossem aprendendo com os erros das anteriores. Os humanos em geral ensinavam seus acertos, e assim muitas vezes o modo como o acerto foi conseguido – justamente a parte mais importante – era deixado de lado. Tá com sono?

Uaaahhh tô quase dormindo.

Então vamos continuar amanhã de noite.

Vô, por que o livro fala homens? Não tinha mulheres nesse mundo?

Hahaha, essa é uma ótima pergunta, minha jovem. Bem que havia, mas você vai ver ao longo do livro que os homens... e também as mulheres... de tempos em tempos nutriam a ilusão de que podem ser governados, e então, a de que podem ser libertados. E nessa ilusão, aquele que é entendido como o governo, é o centro da história, é aquele que observa e julga a todos os outros, que se tornam apenas objetos de sua observação. Não exatamente indivíduos, apenas satélites. Então fala-se de uma história dos homens, e não dos humanos comuns; e o mero fato de se falar assim já diz um pouco sobre eles.

Ainda bem que nós Hobbits não temos isso né.

Entre nosso povo, não, realmente. Temos outros problemas na nossa vida.

O povo da Tormenta ia para a escola?

Elanor, isso é uma história bem mais complicada. Por que não continuamos amanhã, o vô é prefeito e tem que trabalhar, e a senhora muito se beneficiaria de uma boa noite de sono antes do seu campeonato de futebol.


Tá boom, boa noite vô. Harya vanima aurë.

            Doces sonhos.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Senta lá

De dia podemos estar num lugar que consideramos bastante silencioso - como num estúdio de música que tem fundo de ruído de menos de -30dB - e de madrugada podemos achar aquilo barulhento. E se vamos para o campo, aquilo é ainda mais barulhento.

John Cage, quando entrou na câmara anecóica, o lugar mais silencioso que haveria na terra, se surpreendeu com o som estrondoso do próprio corpo.

Fisicamente, o silêncio absoluto não existe - ele é sempre referencial. Ele é mental.

Meditar, enquanto o ato de silenciar a mente, é silenciar os pensamentos, portanto colocar todos os sons percebidos e virtualizados numa paisagem, e deixá-los morrerem por um momento nesse lugar de fundo. Nenhum deles é selecionado e todos fazem silêncio, ao não serem figura em relação a esse fundo.

É chamar o ego de Cláudia e mandá-lo sentar lá.

Sombra da Alma

Aonde foi você que eu conheci
Aquela garota assustada com o mundo
Cheia de sonhos e um filho pra criar
Os óculos de fundo de garrafa
São agora memória nublada
Daquela esperança que não veio a ser
Sonho que veio a adoecer
E morreu em mim

Aonde foi você que eu não conheci
Memórias vividas na imaginação
Cristalizadas em fotos de raros momentos
De portas abertas sorriso a dentro
Mostrando a alma vibrando e um coração
Como será que seria sem Eu
Você voaria livre ou se afundaria de vez?
Como será que seria sem ti
Seria mais fácil ser órfão de verdade do que de mentirinha?

Estive sozinho todo esse tempo
Criado na rua sem a tua presença
E quando voltaram percebi
Que já não fazia mais diferença
Vive hoje a sombra da alma que se perdeu
A vagar num mundo que não percebe
Tateando por aí o caminho de volta pra casa
Aonde foi você?

sábado, 12 de abril de 2014

Ying Yang

A impressão que temos de que a matéria é condensada é uma ilusãozinha. Os elétrons ficam voando ao redor do núcleo, que é pequeno em relação à órbita eletrônica. As coisas parecem bem duras e densas de onde vemos elas, mas na verdade elas são bem mais vazias do que parecem.

Se a matéria fosse feita dos núcleos em si apenas, não seria nada parecido com o que é, seria provavelmente sem forma e sem as propriedades que conhecemos que acontecem da distância e da separação e divisão. Não fosse essa "ilusão", seríamos apenas uma massa amorfa e sem forma.

Um bloco de mármore não é uma estátua até que lhe tirem pedaços.
É o que se chama de esculpir: a forma surge quando se tira partes afim de propor limites diferentes. Ou mesmo, propor limites.

As trevas são basicamente a ausência de luz.
As luzes se espalham para todos os lados que podem a partir da fonte. As sombras estão nos lugares aonde a luz não atingiu.

As trevas são os pedaços de mármore tirados para que haja a forma.
Não existiríamos sem as trevas. São as trevas que nos dão a forma.

Não excluiremos as trevas. Mestraremos ambos luz e trevas, e assim seremos mais, incondicionais. Só assim a escolha pela luz fará parte da Harmonia.

Tu és pó de estrelas. De luz somos feitos e à luz voltaremos.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Harmonia

Toda onda naturalmente produzida entrega consigo um conjunto de harmônicos para além da frequência fundamental. Se esses harmônicos são múltiplos inteiros da fundamental, então temos uma série harmônica e é possível perceber uma nota - por que os harmônicos que soam junto da frequência fundamental não realizam interferência destrutiva na onda resultante de modo que a descaracterize.

A configuração das intensidades destes harmônicos entregues juntamente com a frequência fundamental é chamada de timbre  - esta configuração altera o desenho da onda resultante da soma de fase dos harmônicos com a fundamental. Por esta razão podemos distinguir sons diferentes na mesma frequência.

Música é a atividade humana que consiste da seleção de sons e organização destes com a intenção de dramatização.

Harmonia é a sensação provocada pela organização de sons cuja frequência é proporcional, isto é, é igual senão pela multiplicação de um escalar inteiro (100hz, 200hz, 300hz, 400hz, etc harmonizam). A percepção da harmonia entre dois sons prescinde o entendimento de que dois sons soam bem juntos e são parecidos.

A idéia de organização dos sons é feita com a intenção de dramatização, mas de onde vem a sensação boa provocada pela harmonização em si?

O budismo nos diz que tudo é ilusão; bem, a faixa de sons que ouvimos é bastante limitada, e mais ainda é a faixa de comprimentos de onda luminosa que enxergamos. A verdade é um sonho impossível: para sabermos a verdade holística, ulterior e transcendente, seria necessário tudo saber - tudo o que já aconteceu, acontece e acontecerá, e tudo o que for durante todo o tempo em que o universo vier a ser. O que é impossível, visto que a percepção é limitada (entre outros motivos).

O que a organização e a sistematização permitem é que haja um vislumbramento de um todo mesmo que não haja a percepção de parte de seus elementos. A partir da experimentação dos fragmentos presentes na natureza, os químicos foram capazes de desenhar o modelo da tabela periódica, prevendo a existência de elementos que ainda não existiam ou não haviam sido descobertos.


O que há de belo na harmonia é portanto a verdade transcendente vislumbrada por trás da possibilidade de todos os sons, que é sentida na combinação de dois (dentre inúmeros possíveis) sons que somam construtivamente suas fases e harmônicos - entregando toda uma série harmônica junto que é percebida, conscientemente ou não.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O amor é meu escudo

Para uma velha senhora.

O amor é meu escudo.
Eu sei o que você é, conheço você, sei o que você quer e sei que não é coisa boa.
Eu sei pelo que você passou, sei o que tem acontecido, sei por que você está nessa.
Não, eu não tenho uma solução para sua vida, não posso te ajudar, só você pode ajudar a você mesma.
Não é que eu não queira ajudar a você, é que eu não sou nenhum anjo. E mesmo que eu fosse, não poderia lhe ajudar assim mesmo.
Na verdade ninguém pode ajudar a ninguém, senão a si mesmo. O máximo que pode fazer é compartilhar o próprio ser com o outro, e se o outro quiser, ele pode se ajudar a partir disso.
Não, eu não tenho medo de você. Apesar da cara feia.
Eu sei o que você é, eu conheço você, e é só assim que eu aceito exatamente o que é.
Eu aceito isso por que eu amo você.
Eu amo você por que eu sou você.
Eu sou você por que eu sou Deus, e Deus é você também. Eu sou Sua mão esquerda, e você é Sua mão direita.
Você não pode fazer nada a mim, não pode me machucar, não vai me ferir, só a você mesma.
Eu sei o que você é, e você está comigo no meu coração.
E por isso eu te deixo ir agora.


"Divididos, seremos um, 
pois nós sempre compartilhamos o mesmo coração.
A luz nos fez cegos para a verdade: 
nós nascemos estrelas.
Apenas olhe para o céu, 
e juntos estaremos iluminando a praia."

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sonhador

Você não lembra de como você vem parar aonde vem parar num sonho. Você só se dá conta depois que acorda, e tenta esticar a memória até onde pode, e ver o quanto consegue lembrar.

Eu estava nesse lugar, olhando para dentro de uma casa grande, meio japonesinha, as paredes não eram bem paredes, eram só estruturas de madeira com várias janelinhas quadradinhas de vidro, como que um xadrez. O gramado no chão possuía uns caminhozinhos de pedra ou talvez concreto nos arredores da casa. Estava de noite, e não havia iluminação senão natural, ou seja estava bem escuro. Eu tentei acender a luz do meu celular mas ela não fazia luz direito, sei lá por quê.

Eu estava explorando este lugar, talvez à procura de algo, mas já não lembro o que era, ou talvez não houvesse nada em particular, talvez estivesse à procura de alguém. E encontrei um camarada. Perguntei se havia mais alguém conhecido, ele disse que não sabia.

A gente foi andando pelo caminhozinho de pedra que ficava em frente à casa e ia ao longo da costa - na verdade foi aí que eu reparei que a grama se estendia pouco na direção da frente da casa e virava areia. A praia era linda, a noite produzia um céu escuro, com uma tonalidade bem diferente. Do lado esquerdo do caminho de pedra que andávamos tinha a praia, e do lado direito, a planície gramada parecia envergar num vale ou algo assim, tinha uma pequena depressão e virava uma colina depois.

Estávamos meio perdidos, mas não tínhamos medo. Esperávamos andar naquela direção por algum tempo, por que sabíamos que o mar estava ao nosso lado, e então, através da costa, chegaríamos eventualmente em um lugar que conhecíamos. Estar perdido não era um problema - era bom, o sentimento que havia era de vontade de explorar o lugar, explorar o caminho e cruzar as belas paisagens.

Quando eu acordei, percebi que era um sonho, mas senti que podia ter sonhado um pouco mais. E me perguntei, e se a realidade fosse um sonho, do qual todos nós estamos meio perdidos, sem saber "aonde vai dar"? Mas não importa, por que o perigo na verdade não existe, e o medo é uma ilusão, o sentimento de explorar é mais intenso?

E se viver é, de fato, explorar o sonho?
E se o objetivo é apenas mais uma parte do caminho, se o final é apenas uma das partes do processo todo, que é o que realmente importa?
E se aonde vamos chegar não importa, de fato, porém importa aonde estamos e o que fazemos exatamente agora?

Se um sonho acontece na minha mente, então meu amigo do sonho, com quem eu conversei, na verdade sou eu? Com a certeza de que sou outro, porém ainda assim, o mesmo sonhador falando consigo mesmo?

E se a realidade fosse um sonho, e todos nós fôssemos o mesmo sonhador, com a certeza de que somos outros, porém, ainda um?

E se, como nos sonhos, pudéssemos criar qualquer coisa que queremos ou imaginamos, somente usando a Vontade?

E se tudo o que falta para você conseguir, de fato, fazer isso, é perceber que tudo é mesmo um sonho?

E se você só não percebe justamente por que é o criador da mesma realidade que percebe?


Jardim dos Sonhos

Nesse natal de 2013, eu ganhei um livro sobre o Zohar, umas roupas, e uns perfumes. Nesse livro fala-se abertamente de um rabino que conversava na linguagem do coração com seus discípulos numa caverna.

Na noite do dia 24 para o dia 25 eu tive um sonho. Eu estava numa casa meio velha, acho que é no Rio de Janeiro, nalgum lugar como Madureira ou o Méier. Eu declaradamente não gosto da cidade do Rio, acho a vibe de qualquer lugar de lá que eu já fui sempre muito ruim, é sempre ou falsa ou ácida, agressiva. Egóica.

Essa casa parecia uma versão fudida da casa de um conhecido meu. Não tenho certeza se era, mas sei que estava tocando "down in a hole" do alice in chains (olha só isso huauhshuas). Eu tento voltar pra casa e me encontro num bairro no Rio que eu não sei qual é. Mas sei que é no Rio por causa da padronização zuada que tem lá, lugar mó estranho feioso. É a padronização da feiúra e do tanto faz arquitetural, uma farofa danada.

Não passa nenhum ônibus que eu conheço. Uma hora passa um táxi bem velho, meio caindo aos pedaços, eu hesito em pegar e acabo não conseguindo. Procuro ponto de ônibus e abordo transeuntes perguntando sobre como voltar pra Niterói. Uma senhora negra me ajuda, ela me dá 10 reais pra eu voltar pra casa (apesar de eu não precisar de isso tudo) e eu pego um bus pra São Gonçalo que supostamente pararia no terminal (e de lá eu pegaria outro pra casa).

Eu entro no ônibus sento, e durmo. E acordo de novo no lugar que eu estava antes.

Eu tentei me controlar e procurar outra saída sozinho. E fui pra outro lado diferente do que eu ia pra chegar no ponto de ônibus, fui andando na direção contrária de onde eu tava indo. E tinha um jardim que eu achava que era de um condomínio, mas nem tinha reparado nele ainda, distraído tentando voltar pra casa.

Eu ando na direção do jardim e tem 2 saidas: ou eu vou pelo túnel (tipo um túnel rebouças, escurão) e saio em outro bairro, ou, sei lá, eu tento ir pelo jardim pra dar em outro lugar. Eu vou pelo jardim.

E plin, eu de repente me dou conta de que "era ali que eu devia estar".

E o jardim é foda demais, de maneiras tais que eu não devo explicar ou tentar descrever, por que qualquer tentativa ficaria muito abaixo de suas qualidades devidas. Foi o sublime schopenhaueriano.

Tem uma música, tambem do alice in chains chamada "heaven beside you". O tesouro (o jardim dos sonhos) estava ali a todo momento e eu nem vi. E na verdade ninguém viu. Todo mundo passou por ele batido, seguindo suas vidas distraídos e desesperados e atrasados para algo "importante".

Depois que eu me liguei e vi, eu acordei.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tá acabando já

A vida material às vezes pode ser como uma partida de jogo que iniciou tardiamente.
De repente alguém te chamou pra sair às 8, e você inicia uma partida de meia hora às 7:45.
O cara chega no meio da partida.
E no meio dela e você percebe que já tá repetindo as coisas sem muita necessidade, e sente necessidade de abandoná-la, mas não vai fazer a desfeita de deixar a experiência pra lá e seus amigos do clã ou equipe na mão.
Então você fica até o final, mas sem se ligar muito com o resultado das coisas, mais interessado talvez no processo em si.
Até que venha o próximo processo, talvez o de sair com o camarada que marcou de sair, e depois o processo de encontrar o pessoal no shopping, e depois o processo de ver o filme no cinema com a galera, e depois o processo de comer, enfim.
Todos são repetições; o que interessa é a experiência dessas repetições, que nunca é a mesma. Mas evidentemente, ela pode se saturar, e você pode entender a ciclicidade. Tal como ver certos tipos de filme pode se tornar mais do mesmo, se há um uso extensivo de clichês e estereótipos.
A não ser que você esqueça tudo e recomece de novo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A pracinha de saquarema

A timeline do facebook é, assim como diversas coisas, exatamente como a pracinha de saquarema.

Você viaja pra saquarema pra ficar em casa, boiando na piscina e jogando cartas e tabuleiro - não tem mais nada pra fazer lá; tem uma pracinha, entretanto, que serve como um reduto dos esperançosos por algo que poderia vir a acontecer, mas nunca de fato acontece.

Tudo o que você pode fazer lá
é perder tempo procurando evidências o suficiente para se convencer
de que Nada tem para se fazer lá.

Do mesmo modo, eu fico vendo esses comentários e acabo me lembrando fatalmente de que não tem nada aqui, e sempre dou uma segunda olhada pra ver se não aparece algo diferente, como se estivesse procurando razões pra me convencer de que não há nada que preste aqui.

A sensação de que tudo o que resta é se convencer de que nada resta deveria ter uma palavra própria.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

I'm going to take it

"I just want to be the greatest rapper ever. And if not the greatest, then at least one of the best. That's what I want - along with respect.

But I'm not going to beg for respect, or beg for acceptance. I'm going to take it."

Eminem

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Educar para Transcender?

Jorge Sanjinés se reinventou a partir do choque advindo da crítica popular aos seus filmes. É evidente que havia aquele fetiche de que as camadas populares se vissem no cinema, havia essa necessidade de se ver representada na tela. Mas isso não evitou que alguns dissessem que, em seus filmes de denúncia, não viam nada de novo: sofriam na pele aquilo que era mostrado nas telas, diariamente - ninguém precisava lhes relembrar aquilo. Isto expõe a necessidade da transposição do caráter apenas denuncialista para o propositor, o reflexivo e uma idéia de ciclo, e aí fica a pergunta se a própria idéia de ciclo precisa ser também transcendida.

Por exemplo, existe uma condição de financiamento estatal que impede projetos culturais de saírem do papel. Há a denúncia, que deflagra uma série de outras denúncias, até que se esgota o caráter denunciativo. Durante esse processo, pode ou não surgir manifestações propositivas (além de denunciativas), por exemplo projetos de lei que consertem esse problema com os projetos culturais. Daí o projeto de lei pode ou não ser votado, e caso se concretize em lei, suas implicações na sociedade tornam-se eventualmente tema de reflexão - e num futuro, possivelmente essas reflexões venham a produzir novas denúncias.

Traçando uma ligação à condição pós-moderna, esta que enxerga ciclos cada vez menores de criação-implantação-consumo-obsolescência, há também a reflexão sobre a possibilidade de transcender a ciclicidade. O debate é fortemente necessário, pois há um grande ceticismo, presente nas obras, quanto às teorias todo-explicativas (que tem certa pretensão de tudo explicar), por exemplo a luta de classes de Marx ou o inconsciente, de Freud. E surgem cada vez mais artigos relacionando luta de classes e jogos online (com o perdão da metonímia). Vejam este exemplo: http://gamehall.uol.com.br/v10/a-luta-de-classes-ja-chegou-no-mundo-virtual/

É algo sobre o qual se escrever, especialmente em situações de alta desigualdade social, de subdesenvolvimento. Quero dizer que o fato de denunciar em si tem sido esgotado, tal como as teorias todo-explicativas - e elas contribuem para esse esgotamento quando fomentam leituras críticas de temas que não exatamente produzem desigualdades tão sensíveis - vide os temas defasados. Se os ciclos de obsolescência do mecanismo de denúncia-proposição-reflexão estão ficando cada vez menores, o que vai acontecer com a substancialidade das suas respostas?

Digo isso por que parece que os ciclos estão chegando ao fim. Estamos numa espécie iminência constante da transcendência de muitas questões que passam por essa característica de ciclicidade, especialmente sobre alguma variação do tripé ver-fazer-refletir, que é próprio da experiência de ser - não só parte de uma metodologia de ensino de vídeo-processo. O engraçado, em se falar de Cinema e Educação, é que no dia 22/10/2013, estava no II Encontro de Educadores de Cinema e Vídeo, parte da agenda da semana acadêmica. As falas finais estiveram permeadas por palavras em prol da busca pela transcendência.

A busca pela transcendência é, fatalmente, a busca pelo sublime, pela realização do Self, pela libertação das estruturas de controle do Ego, e ela está de alguma maneira, presente nas artes. Essa característica foi apontada como um dos propósitos do cinema.

O que eu digo é que na verdade ela É o cinema - ou melhor, o cinema é a melhor tentativa do homem, a mais forte de todas, de se encontrar fora do eu, encontrar-se fora de si, para que a partir desse encontro, seja capaz de transcender as sensações e o entendimento, e seja quem de fato se é - não o simulacro de si construído pela linguagem, que por mais elaborado e evoluído que seja, é tentativa, não coisa em si. Esse eu é colocado na tela, reconhecido, e aí é transcendido.

Quando uma professora antes apontara a questão da cautela que se deve ter ao lidar com a situação de condicionamento, disse depois que já reconhecia aí, no próprio exercício da produção fílmica, a idéia de transcendência. Esta professora estava falando que alguns alunos estavam fazendo filmes sobre temas denunciativos que não eram próprios da sua realidade, como a gravidez na adolescência e as drogas - estavam fazendo suas escolhas a partir não daquilo que realmente queriam porém a partir de uma expectativa, consciente ou não, de aprovação por parte do professor. Então seria necessário desfazer esse condicionamento, com grande cuidado, afim de que o aluno fosse capaz de expressar-se a partir da sua verdadeira personalidade, e não buscando uma aprovação externa.

O que é essa busca pela verdadeira personalidade senão a busca pelo próprio Self? O que é libertar-se desse ciclo de fisgar-puxar-soltar (cujas iscas são de aprovação, aceitação e outras coisas, que no fundo são o mesmo - moedas de medo) senão libertar-se do próprio Ego? A busca pela transcendentalidade é, fatalmente, a busca pela liberdade - a liberdade de ser mais.

Bom, a quantidade de coisas que a ferramenta pode comunicar (de maneira direta e principalmente indireta) é tremenda, é como comparar fibra ótica à conexão discada. Isso por que a linguagem cinematográfica (com ressalvas da generalização é claro), com toda sua fluidez e subliminaridade comunicativa dá conta muito bem de sequestrar a atenção do espectador, de puxar ele pela gola para dentro da janela e colocá-lo enfiado dentro daquele personagem a quem é associado o plano POV, por exemplo. É através dessa capacidade que acontece o fenômeno de alteridade.

Um dia desses você pode se encontrar pensando alguma coisa que você acha que é de sua autoria, mas na verdade pode não ser bem isso, por que o que proporcionou a confecção daquela idéia foi exatamente a sua experiência de ser o outro, que um filme proporcionou um dia desses e você nem percebeu - só depois, refletindo a respeito. Por isso é preciso uma constante reflexão do que é que está sendo visto na tela, e mais do que isso, é preciso que haja uma resposta.

Em se tratando de Cinema e Educação, existe o desafio de fazer filmes sobre a escola não apenas tomando-a como cenário, porém como agente personificado – isto é, em outras palavras, fazer filmes que dialoguem Com a escola. A escola tem que ser capaz de falar e criar meios para isso, e um deles é a câmera.

A educação – enquanto conjunto de fenômenos simultâneos de aprendizado e ensino – é produto das transposições entre gerações diferentes, e seus modos de ser, agir. O conhecimento e a cultura se produzem e se perpetuam nessa interface e através dessa cadeia de fenômenos incessantes. Então se for possível haver uma ideologia política subjacente ao uso e a criação dos mitos e estereótipos no cinema hollywoodiano (estereótipos como os de professor e o de aluno, por exemplo, que produzem efeitos no inconsciente) então é obrigação dos estudantes de cinema no Brasil (um país tão prejudicado em termos de educação) empreender ações que democratizem os meios de captura e entendimento desses fenômenos, e o mais importante, que respondam aos mesmos – em outras palavras, também tem que ser possível haver uma resposta sensível a essas ideologias subjacentes.

É compreensível que haja um medo do poder da ferramenta audiovisual, uma vez que a capacidade de expressão dela é abismal. Hitler, Stalin e tantos outros construíram cinematografias e influenciaram identidades e deixaram signos no inconsciente daqueles que frequentaram os filmes, em prol de agendas bastante claras, viabilizadas pela máquina estatal. O cinema constituiu fração generosa da máquina propagandista desses governos.

A escola tem que ser capaz de se expressar nesse sentido – assim como um professor não deve ser apenas um passador e o aluno um receptor, a própria escola também não deve ser apenas um receptor, se não ela se perde do seu sentido. Assim posto, o ensino do cinema se projeta como uma poderosa arma de democracia, dando aos alunos e professores essa capacidade de produzir respostas audiovisuais, e conscientizar-se da expressão - e desenvolver de fato potencialidades, para além dos tijolinhos quadradinhos de conhecimento cimentado em currículos produzidos em decisões centralizadas.

Nesse contexto é preciso dizer que sim, o cinema pode ser tudo isso, uma máquina de guerra, uma máquina de educação e de construir nações e etnias, mas ele pode ser mais - na verdade ele, tal como o homem, ele É muito mais, só não está consciente disso sempre.

Chamam de projeção o fenômeno que proporciona ao homem uma ilusória experiência de capacidade de manipular aquilo que está dentro dele a partir de fora dele. As questões mais profundas da nossa mente não estão dadas; não são manipuláveis, tampouco são claras. Então o homem, incapaz de olhar para dentro com a mesma clareza que olha pra fora, projeta. Em outros tempos esse mecanismo foi razão do fim de inúmeros relacionamentos e de tanto sofrimento - a incapacidade humana de enxergar o outro para além do Eu que há no outro - que é a projeção.

O cinema, entretanto, permite Manipular o Eu. Permite ser Outro, e aprender com a experiência de ser ele. O cinema é capaz de quebrar essa barreira entre Eu e Outro mostrando o óbvio: que ela não existe. O cinema é capaz de mostrar Aquilo que diz ou explica - e que, por tal, não pode ser explicado ou dito. O cinema mostra que a realidade é uma construção, que você é quem a cria. No fim, o Cinema, a Educação e a busca por transcender são partes inseparáveis da mesma coisa.

Os ciclos estão chegando ao fim; é hora de transcender.



domingo, 20 de outubro de 2013

Manifesto por uma Nova Instituição de Acolhimento ao Calouro

Mais especificamente sobre o trote do curso de Cinema da UFF, este artigo foi inspirado por uma manifestação contra o trote que ocorreu no grupo de Cinema.

Eu não participei tanto, à altura, do tópico relacionado, mesmo por que como já disse em outro texto, nem sempre as pessoas querem construir uma opinião elaborada ou encontrar verdades. O que acontece é uma inevitável briga animalesca entre egos - com o intuito único de provar que o outro está errado.

Fiz apenas uma colocação no sentido de situar o que de fato é o trote. Para além da argumentação feita ali no grupo, o que pode não ter ficado claro acerca do meu posicionamento é que eu sou contra o trote e defendo o rompimento com esta tradição - porém respeito a liberdade individual, e se outros grupos quiserem fazer, problema é deles.

Discutam com seus amigos e perguntem quais deles fizeram trote, e peçam para que eles reflitam sobre o quanto isso foi relevante na sua socialização enquanto calouro, e quais são suas experiências a respeito.

Não é preciso ser um gênio para saber que a relevância do trote enquanto forma de socializar os calouros é mínima ou nula - e ainda diria que se não é nula, é para pior, não para melhor. É brilhante como algumas pessoas acreditam mesmo que colocar a cara na farinha e se sentir fudido junto com os amigos cria senso de união - ao invés de acreditar na convencional construção paulatina do bom relacionamento, na apropriação do espaço da faculdade, essas coisas bobas. 

Portanto não vou perder meu tempo chutando cachorro morto, e dando adjetivos negativos bonitos ao trote estudantil, dizendo por que é humilhante, contribui para a reprodução do comportamento não-desperto, de reafirmação da opressão, etc. Para mais, leiam aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Trote_estudantil

Falo aqui de uma possível ressignificação. Sou contra. O trote é uma brincadeira imbecil, só isso. Não se faz uma brincadeira imbecil sem a imbecilidade. Brinca-se de outra coisa.

Se é possível falar nesses termos, o trote enquanto instituição tem história, nome, significados e ressignificados, todos em torno de (mesmo que em tom crítico) sua essência, que se não é algo exato, certamente é constituído de elementos de um lugar comum do inconsciente, e evidentemente reafirma o status quo em alguma parte, queira ou não.

Defendo, portanto, a abolição desse tipo de prática e a construção de uma nova instituição em seu lugar. Com outro nome, que reflita uma outra essência, a partir da qual a significação e a ressignificação seja feita, constituindo elemento cultural e herança cultural (étnica, se assim vale).

Já é previsível aí a vontade dos estudantes de cinema, por exemplo, de produzir vídeos com e para os calouros. Essa herança, deixada em memórias, textos, vídeos, enfim obras de pensamento, refletiriam essa essência e nome novos, e constituiriam cultura.

Evidentemente, esse debate passa pela definição de Educação: o conjunto de fenômenos de aprendizado e ensino que acontece simultaneamente na transposição das gerações, isto é, no encontro, choque e mistura entre uma geração mais velha e outra mais nova. E nessa interface é que acontece produção e perpetuação de conhecimento e cultura. Nesse sentido que faz uma tentativa de retorno à essência (sem muito rigor argumentativo, usando apenas com objetivos clareadores), a nova instituição referida deveria servir também para uma maior apropriação do espaço da faculdade, ao invés de servir exatamente ao contrário, criando espantalhos do ambiente acadêmico discente e docente.

Ao invés de perder tempo colocando a cara na farinha e perpetuando as mesmas besteiras de sempre, por que não produzimos um legado cultural que jogue o calouro para o olho do furacão que é a educação superior? Que deixe ele sabendo o que caralhos significa Pró-Reitor. Você sabe o que é um e pra que serve - ou mesmo quem são eles?

Schopenhauer, ainda na linha do comentário sobre a discussão, lembra: tanto ler e aprender quanto escrever e ensinar, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio e à clareza e profundidade de saber. Sendo assim esse diálogo Constante (entre as novas gerações), além de ser a essência da educação e portanto a coisa mais importante que deve haver dentro de um ambiente acadêmico, é a própria construção e perpetuação da consciência e do espaço que conhecemos por Universidade.

Se uma das idéias reformistas do trote era de uma real integração do calouro, ao invés de um mero uso desse pretexto para na verdade perpetuar os mesmos preconceitos e comportamentos reafirmadores de características do status quo, acho que esse é o único caminho.