terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Humanidade Latente

Defrontado com a ímpia possibilidade de ver-se livre daquilo, refutou. Porque não seria justo, porque não seria humano. O homem que não revê na última hora seus julgamentos, que não se indaga se o caminho que escolheu está de acordo com sua vontade, não é mais um homem.
Este primeiro parágrafo pode parecer contraditório em relação ao meu último texto. Mas meu último texto falava de um procedimento, de uma regra a ser adotada sempre. Certamente esta regra auxilia na tomada de decisões e na conquista de objetivos, mas ela é um meio e não um fim.
Quando nos dedicamos a algo, podemos sentir angústia devido as dificuldades que decorrem de tal busca, felicidade pela busca em si e diversos outros sentimentos relacionados. Estes são os pequenos fins que precedem um fim maior. A cada momento, o fim é como nós nos sentimos. Se morrêssemos a cada minuto ou hora e ressuscitássemos somente para viver mais um minuto, para usar uma contagem de tempo universal, poderíamos determinar se fomos felizes durante aquele curto espaço de tempo.
O teórico americano Terence McKenna sustentou uma tese de que a história era um círculo onde havia momentos de crise e de bonança. Tal círculo sempre se repetia e com o avançar dos séculos e, consequentemente, da tecnologia, o círculo iria se acelerando até que pudéssemos viver toda a história da humanidade em um dia. Para provar sua teoria, mostrou com a sequencia de crises que ocorreu no século XX era impensável no século X, por exemplo. Claro, poderíamos dar diversas outras explicações para isso, mas a teoria dele tem algo que vale. A prova de que momentos curtos de tempo podem ser a culminação de uma jornada transcendental que escapa a nossa racionalidade.
Quando, por exemplo, você percebe que deixou de gostar de alguém, parece que isso simplesmente aconteceu, mas não foi assim que de fato ocorreu. Sua mente passou por todo um processo de desassociação, não só químico, mas psicológico, e aí reside a transcendentalidade do fenômeno, que escapa a racionalidade humana. A psicologia é o estudo da capacidade de abstração inconsciente da mente humana. Da alma.
Quando falei de vontade no meu texto anterior, não defini exatamente o sentido da palavra. Eu não sabia qual sentido adotar. Até dei algumas pistas de associação nietzschiana, mas não foquei muito no assunto. Vou definir mais um pouco. Falo de uma vontade que combine essa vontade de potência do supracitado autor a arroubos de ponderação racional. Com isso já podemos definir melhor o objeto da primeira parte do texto.
A Humanidade Latente, o que é?
É difícil defini-la. Imaginem um ser humano moldado pela sua sociedade, que consome de ideologias a hambúrgueres e outras contemporaneidades escrotas. Esse ser humano é um lixo, como provarei no meu próximo texto. Quase não é humano. Claro que essa é uma definição subjetiva, mas se você discordar dela, também vou te achar um merda, mesmo que não fale. Este ser humano age mecanicamente segundo os preceitos estabelecidos pela sua sociedade acerca da forma que ele deve agir.
Vamos pegar um outro exemplo. Um nazista, num campo de concentração. Não preciso nem definir o que é um nazista. Escória da humanidade.
Vamos confrontar o primeiro exemplo com uma situação banal, uma criança pedindo esmola. Muito comum, infelizmente, na nossa realidade. Essa criança É invisível para nosso exemplo, um merda, moldado por uma sociedade de merda. No entanto, se esse merda um dia for tocado pela situação de hipossuficiência da criança e der uma esmola, que seja, eu garanto, ele é um dos melhores seres humanos existentes.
Agora o nazista. Os nazistas são o exemplo mais comum de maldade. Mas eu digo, se o nazista olhasse para um jovem judeu, para não pegar situações apelativas onde ele pudesse contracenar com crianças, idosos e mulheres, e sentisse misericórdia, ele seria espiritualmente perdoado pela Divindade. Pela Humanidade.
A Humanidade Latente é justamente isso. Só existe na ação, no momento. Sua abstração é infimamente pequena. No entanto, é justo ela que faz a maior diferença. Em dois sentidos. Ela mostra uma evolução do ser, que tendo sido jogado numa situação de desumanização, conseguiu encontrar em si forças suficientes para reverter os mecanismos que o transformavam numa máquina. E como toda a evolução, esse é um processo lento e que culmina na finalização de um momento temporal, como o minuto dito lá acima. Mostra que esse ser humano passou por todo um processo transcendental onde imperou sobre ele a vontade de fazer o que era de fato humano. Em outro sentido ela mostra uma conexão primal entre todos os seres humanos, a capacidade de amar.
Não digo que todos os seres humanos são iguais, pelo contrário. Acho que existem seres humanos melhores e piores. Mas todo ser humano ama, a princípio. Isso que destaca estes seres humanos entre todos. Quando estavam tendo sua capacidade de amar transformada a frangalhos, conseguiram se reerguer, vencendo a imposição da frieza procedimental que os impunha o comportamento errado que estavam por executar, ou já executando. Eles tiveram a capacidade de se reconectar a humanidade e ao mundo.
Nem todo ser humano faz parte da humanidade, no entanto. Não sei porque, mas somente alguns são parte dela. Não poucos, ou melhor, não sei. Só nesses momentos que impõem a necessidade de se fazer um julgamento demasiadamente humano, mesmo que no último momento de um processo já quase completamente executado, é que podemos julgar a humanidade de uma pessoa. E as humanidades se conectam, entre as pessoas.
Se você se defronta com um ser humano de verdade, sabe. Inclusive, no meu próximo texto, tratarei disso. Ele é sempre orgânico, até nas coisas mais banais.
A parábola do filho pródigo, tão educativa acerca do Amor Divino, deveria ser recontada como uma história de Humanidade Latente, não como foco no filho, mas com foco no pai, que tendo um filho que o abandonou e rejeitou, conseguiu amá-lo quando de seu regresso.
A Humanidade Latente é o Amor. A Humanidade, o que define o ser humano de verdade, é o Amor. E o Amor é Orgânico.
E tudo que é Orgânico é Divino.

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