terça-feira, 16 de outubro de 2007

Capítulo IV

** This is Sparta, ou melhor, “Isto é Ankhalimah!” Realmente. **

Chamava-se Victor, nome dado ao seu avô.
Ao chegar na cidade, foi à estalagem, recebido com olhares melancólicos, estranhamente. Algo nele havia ido embora. Uma sensação de tristeza lhe veio à cabeça, talvez tivessem esquecido quem ele era, embora não fizesse o menor sentido. Pois bem, ele começava a dar mais créditos a esses sentimentos que não fazem muito sentido, pois eles surgem do nada, portanto têm um pouco de instinto.
Seguiu, após instalar-se devidamente, à Taverna da esquina. Percebeu a presença de um sujeito um tanto quanto rico, fanfarrão, bebia muito e falava alto com seus companheiros. Pensou como poderia ser feliz se pudesse gozar da vida em alto e bom som sem precisar fazer nada. Uma gorda herança, que desse para viver uns 90 anos gastando à vontade e fazer disso um trabalho.
Nisso lhe surge Um rapaz aparentemente de mesma idade, com uma clave de sol estampada na camisa, um chapéu um tanto esdrúxulo, um ar sacana. E lhe dá um tapinha nas costas, diz: “Vamos lá novamente, vai valer apena, aposto.” - o que lhe proporciona uma sonolência seguida de espasmos, uma sensação já conhecida.
Victor viu-se com um bilhete na mão. De fato, ao meio dia do mesmo dia extraíram-se prêmios para os números do tal bilhete, e o afortunado assegurou-lhe setenta e cinco mil cunhos de ouro. Como que em um daqueles sonhos na qual a consciência não nos martela a cabeça, Victor não hesitou em dirigir-se a um dos melhores restaurantes da região e jantar como um príncipe. Farto, foi ao alfaiate, vestiu-se com o melhor fato que encontrou, barbeou-se, e estabeleceu residência em um bom hotel.
Deu-lhe um estalo na cabeça, pensava agora “Onde encontrarei uma donzela nova, bonita e amante?” - pois via-se a alguns quarteirões do teatro, onde representaria no mesmo dia uma tragédia de Ésquilo, dizia um grande anúncio. E o mais novo e querido filho da fortuna foi encher as algibeiras de ouro e dirigir-se ao lugar.
Entre o grande número de pessoas, pela maior parte nobre, encontoru-se ali duas mulheres, uma já idosa e outra no esplendor da mocidade, cujo composto pareceu ao enamorado Victor o que o mundo se podia imaginar de mais sedutor.
Aproximou-se delas, com o desembaraço que inspira a opulência. A jovem recebeu-o com grande timidez, fez cara de ingênua e com algum esforço conseguiu corar.
Victor ficou satisfeitíssimo ao vê-la assim com um todo tão honesto. Declarou-lhe suas intenções e ela respondeu-lhe com excessiva conduta. A velha, que se intitulava mãe, abeirou-se dele, e disse a Victor que levava muito em gosto a união da menina com tão distinto cavalheiro.
Acabada a representação, tão bem acolhido viu-se Victor pelas duas mulheres, ofereceu o braço à moça, que aceitou sem a menor hesitação. Logo chegaram à casa delas, que convidaram-no para cear e o serviram com toda a cortesia e urbanidade. Durante a ceia, Victor soube que as duas mulheres eram provincianas, e estavam na tal cidade tratando do processo de uma herança, e deram-lhe a entender que o juiz não recusaria receber dois mil cunhos de ouro para resolver o pleito em favor delas.
Victor, que tudo podia com sua fortuna, ofereceu bizarramente aquela quantia.
Elas porém, recusaram com uma certa reserva. Isso o fez pensar que julgavam-no incapaz de fazer aquele negócio, porém Victor tinha a algibeira recheada, insistiu e apresentou o dinheiro. Então, fizeram acordo, com a cláusula de que receberia uma declaração em forma, e ele concordou. A mãe passou ao seu gabinete para escrever uma declaração e deixou nosso personagem com a encantadora jovem. Ele pensou que após um empréstimo de alguns mil cunhos podia tomar algumas liberdades, e foi exatamente o que fez.
A jovem francesa resistiu com uma certa firmeza, mas o amor e o vinho fizeram o rapaz empreendedor e atrevido. Ela, “incapaz” desses espalhafatos que sempre prejudicam uma mulher(nota do autor: ler isto com um tom sarcástico se em voz alta, fazendo favor.) contentava-se em opor mãos um tanto ativas aos ataques do temerário conquistador.
Defendendo-se daquela insistência, foi recuando insensivelmente, e tropeçou sobre a cauda do vestido vermelho-sangue, caindo por cima do sofá...
(OEE, GANHÔ)
Depois, a 'pobre' pequena deixou cair umas lágrimas, e ele as enxugou prometendo casamento. A velha voltou logo em seguida e de tão boa fé, nada desconfiou. Emendando uma nova conversa, Victor convidou-as para jantar no dia seguinte em sua compania no hotel. E foram.
Tinha ajustado com o tabelião para que estivesse lá à noite, e foi comprar um cofre de jóias para oferecer à sua noiva. No que foi tão pródigo que ao voltar para casa lhe restavam apenas uns quinhentos cunhos. Entregou o cofre à francesinha, e foi procurar o tabelião, que se encontrava atrasado, afim de lavrar a escritura que o devia aliançar àquela que tanto lhe enlouquecera os sentidos. Mãe e filha se despediram dele com toda cordialidade e pediram-lhe que não demorasse.
Victor voltou no fim de uma hora, na companhia do tabelião, ansioso. Entrou muito jovial no salão do hotel, e... nem vivalma. Percorreu a casa, nada, perguntou ao dono do hotel pelas duas, e ele lhe disse que haviam saído ambas.
Victor teve um pressentimento. Foi ao armário e viu que seu cofre havia partido com as senhoras, e no lugar das jóias e do dinheiro encontrava-se um bilhete concebido nestes termos: “Quando uma rapariga esperta encontra um asno, um palpavo, prega-lhe o mono. This is the rule. Da próxima vez, antes de se meter nestes assuntos, estude-os primeiro, o então pode lhe custar caro. Desejamos-lhe que a lição lhe seja profícua. Tenha um bom dia...” - Assinado com uma marca de batom.
(OEE, PERDEU)
Respirou aliviado o pobre sujeito ao saber que não havia saído da taverna, e contentou-se com sua condição por vez. Curiosamente, o sujeito que lhe abordara antes de tudo acontecer deixou-lhe o chapéu de bobo-da-corte, para que se lembrasse do incidente.