domingo, 24 de agosto de 2014

Capítulo I - Dos Aldarianos

"Aldaris estava, aparentemente, em guerra. 
Eu percebi a guerra, e no princípio, não me dei conta de que poderia desejar a paz.
E então eu me dei conta, e então eu de fato desejei a paz. 
E eu disse a aldaris que queria a paz, e lhe acalmei com felicidade e amor.
E do amor, percebi que eu e aldaris éramos um, e eu também fui aldaris. 
E sendo aldaris, acalmei meu coração e também desejei a paz. 
E estive, então, em paz.
E a paz foi.
E, no silêncio de sua eterna compania, o fato de ser bastou."

Ditado do Ancião da Colina


            Havia, minha neta, certa época, um povo vivendo a noroeste da Terra Distinta. Tal povo possuía uma peculiaridade bastante inusitada: todos os habitantes eram o mesmo habitante.

            Era difícil aos homens comuns daquela época compreender que os habitantes de Aldaris se entendiam uns aos outros como a mesma pessoa; eles tentaram explicar, certa vez, reza a lenda:

Imagine, que, num sonho desses, com algumas pessoas você conversa. Se este sonho acontece na sua mente, dentro da sua cabeça, ora, de modo simples, então aquelas pessoas são, na verdade, você. Com a certeza de que são outro, mas ainda você. Conosco é assim: somos o mesmo sonhador, que é tudo o que é e todos que são; e você seria um de nós também, se percebesse.

            Nesse livro também conta-se que era um povo extremamente desenvolvido, sábio e avançado; o que um sabia, todos sabiam, já que todos eram o mesmo. Não havia segredos, nem mentiras que os protegessem; assim, amar não implicava em sofrer. Dizer a verdade, curiosiamente, não era por vezes sequer educado - era, o ato de pôr nas diminutas dimensões da palavra estática aquilo que já era profundo saber da experiência dinâmica, algo grosseiro; como tomar o cristal que transcende a condição de rocha e fazê-lo um conjunto de planos e arestas translúcidos.

E isso não vinha a ser o mais intrigante aos olhos dos outros. Os aldarianos viviam muitos séculos, por vezes chegando aos 2000 anos; nasciam, raro, mas com condições de colheita favoráveis, nasciam, permitia-se filhos. E os jovens eram indivíduos, que, após longos anos, eventualmente abdicavam de sua identidade, depois de tê-la formado e tê-la experienciado das trevas à luz por completo; e assim ingressavam na Unidade.

            Na verdade o que o homem comum não conseguia entender era como pode o aldariano ser nascido indivíduo. As crianças do homem comum, em contraste, não eram entendidas como indivíduos, porém como objetos animados com a potência de indivíduo; o que exemplifica em parte sua educação com princípios de militarização.

            Khabral, o grande dragão-lich, com toda sua força e raiva, não era capaz de penetrar os escudos de força que circundavam o Vale de Ûr, livre-capital de Aldaris. Era também curioso que os aldarianos dessem o mesmo nome para sua terra, seu deus e seu povo. Não era, no entanto, surpresa que não houvesse governos por lá, apesar haver distinção entre os trabalhos realizados pelos mais velhos por questões meramente corporais; mas todos sabiam fazer de tudo, e o que precisavam fazer e quando, e o faziam sem precisar de ordens. Khabral tentou fazer de tudo - desenvolveu e jogou pragas e envenenou os rios do noroeste da Terra Distinta. Aldaris assimilou as pragas ao seu ecossistema, reajustando o equilíbrio de plantas e animais para acomodar as pragas; não foi difícil criar também uma usina de despoluição, que aliás, produziam, com adequado tratamento, ótimo adubo. Qualquer que fosse a maneira com que se tentasse produzir uma forma de desequilíbrio, a Unidade se reconfigurava afim de acomodar as novas variáveis, e a harmonia era rapidamente restaurada de maneira natural.

            Por eras e aeons avante o povo aldariano passou sem grandes problemas sua estadia na Terra Distinta, por maiores que fossem as violações para além de suas terras, visto que para qualquer outra nação ou raça seria impossível produzi-los qualquer mal.

Vô, o que é um Aeon?

            É uma forma de dizer Era, mas aqui quer dizer menos com relação ao tempo e mais com relação à sensação que os homens têm de seu tempo.

            Ah, entendi.

            Há que se comentar que em Aldaris nunca se oferecia ajuda. Costumava-se dizer que era por que aldarianos eram egoístas e só ajudavam a si próprios, a quem eles compreendiam exatamente como ajudar; o silêncio escondia uma profunda humildade. Em Aldaris todos tinham a plena certeza de que o único jeito de ajudar alguém é dizendo aquilo que ela precisava ouvir; e só era possível saber isso a partir da própria pessoa. Portanto, só se ajudava a quem pedisse ajuda. No entendimento deles, era uma grande arrogância achar-se na prerrogativa de capaz de ajudar a alguém - na verdade, eles acreditavam que ninguém pode ajudar a ninguém de fato, porém apenas compartilhar o seu mais autêntico e verdadeiro ser, e assim, permitir que o outro ajude a si mesmo.

Além do mais, eles sabiam que havia um grande risco em oferecer ajuda a outras pessoas: o de que elas projetassem, na pessoa que oferece, a própria responsabilidade pelo seu desenvolvimento, deixando assim de viver o processo e falhando inevitavelmente. E por fim, haviam ainda alguns indivíduos cuja identidade não estava autocentrada e alegavam estar à procura de ajuda, quando na verdade procuravam atenção e aceitação - e, analogamente, haviam pessoas que ofereciam ajuda aparentemente sem esperar nada em troca (tal como deveria ser), porém esperavam aceitação e aprovação por suas ações. Em Aldaris, isto não é ajuda, porém é um grande empecilho para a vivência plena; a falsa ajuda não apenas não ajuda, ela atrapalha.

            Portanto, exceto em casos muito particulares e quanto a alguns indivíduos bastante específicos, Aldaris jamais interferiu fora de seus domínios. E por isso - na verdade, muito mais por medo do que por isso -, também não se ofereceu ajuda ao povo Aldariano quando ocorreu a Partida; e os aldarianos também não pediriam ajuda, porém tentariam lidar com aquilo como sempre fizeram.

            Hum. Você vai gostar dessa. Sempre intrigou e divertiu aos aldarianos a quantidade de peripécias que os humanos comuns criavam para fazer as coisas parecerem diferentes – para melhor ou para pior do que realmente são. Em Aldaris não se achava necessário o espaço para uma escola, algo que era imprescindível para os homens; lá entendia-se que era absurdo que a experiência de viver precisasse de algo que não a própria experiência de viver para que fosse devidamente assimilada.

Já os homens separavam-se em  lugares, em ante-salas da vida, com o intuito de educar suas crianças, como se elas não fossem capazes de aprenderem sozinhas o que quisessem; e nisso, as obrigavam a aprender o que eles achavam importante, independente do que elas achavam. Os adultos, com seu orgulho, também não aceitariam que rissem das suas preciosas aulas. Até se fazia rir em sala, mas meramente com o intuito de passar por debaixo da porta um outro conceito ou informação goela abaixo.

Ninguém gostava da escola, mas todo mundo a achava imprescindível. Todo mundo achava que a escola tinha inúmeros problemas, mas ninguém assumia a responsabilidade por eles. Então ela sempre sobrava nas costas de quem tinha menos condição de ser escutado, os pobres, as crianças, os pais das crianças, até mesmo os professores. Para os aldarianos isto não passava de uma bagunça sem sentido, mas eles entendiam que fazia parte do destino dos humanos entender e superar suas diferenças. Mesmo com um intervalo de tempo para viver tão curto, isto seria possível, contanto que as gerações fossem aprendendo com os erros das anteriores. Os humanos em geral ensinavam seus acertos, e assim muitas vezes o modo como o acerto foi conseguido – justamente a parte mais importante – era deixado de lado. Tá com sono?

Uaaahhh tô quase dormindo.

Então vamos continuar amanhã de noite.

Vô, por que o livro fala homens? Não tinha mulheres nesse mundo?

Hahaha, essa é uma ótima pergunta, minha jovem. Bem que havia, mas você vai ver ao longo do livro que os homens... e também as mulheres... de tempos em tempos nutriam a ilusão de que podem ser governados, e então, a de que podem ser libertados. E nessa ilusão, aquele que é entendido como o governo, é o centro da história, é aquele que observa e julga a todos os outros, que se tornam apenas objetos de sua observação. Não exatamente indivíduos, apenas satélites. Então fala-se de uma história dos homens, e não dos humanos comuns; e o mero fato de se falar assim já diz um pouco sobre eles.

Ainda bem que nós Hobbits não temos isso né.

Entre nosso povo, não, realmente. Temos outros problemas na nossa vida.

O povo da Tormenta ia para a escola?

Elanor, isso é uma história bem mais complicada. Por que não continuamos amanhã, o vô é prefeito e tem que trabalhar, e a senhora muito se beneficiaria de uma boa noite de sono antes do seu campeonato de futebol.


Tá boom, boa noite vô. Harya vanima aurë.

            Doces sonhos.

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